Outras Questões

Sexualidade – Uma visão humana, freudiana e franciscana

Por Augusto César Fortes

Analisando no homem o instinto sexual, chego a três grandes visões. A primeira, a visão humana e como o homem banaliza a ferramenta básica de reprodução. No segundo caso, a visão da psicanálise, e essa de modo muito superficial por não ter domínio dos estudos, apenas orientações. E a visão dos toqueiros em relação ao assunto, uma vez que um de seus três votos é a castidade.

O instinto sexual é algo natural, num processo intrínseco a todo animal do planeta. Não há de se saber de algum animal que não tenha seu cio, seu período fértil e seu rito de reprodução, que não passe por um processo de acasalamento, sendo este desencadeado por um instinto único: o de se reproduzir, de praticar o ato sexual. A obviedade a ser citada é a de que o único ser capaz de, racionalmente, tentar controlar estes impulsos é o homem, lembrando que a descoberta do corpo, as alterações hormonais e a preparação do corpo na puberdade, tendem a prepará-los para o ato culminante de se reproduzirem e assim praticarem o sexo.

Para o homem, em senso comum, descarto aqui quaisquer tipos de apologias ou movimentos que enaltecem ou desprezam as relações. O ato sexual tornou-se fonte de prazer banal, esquecendo-se da função primordial: a reprodução. Existe, hoje, uma visão comercial do sexo, seja em forma de produtos, seja em forma de divulgação, como apelo em geral. A sexualidade, atualmente, vende. É o melhor mercado e o de maior visibilidade. E quanto mais explícito, melhor. Isso porque o homem aprende desde cedo que aquilo que seria um órgão a mais em seu corpo, assim como o fígado, o pulmão e o coração, pode lhe fornecer prazer, acima de tudo. Descarto aqui, também, qualquer relação a doenças sexualmente transmissíveis, infortúnios como estupros, impotência ou outras tristezas relacionadas ao sexo para objetivar o ideal: o sexo é fonte inesgotável de prazer, prazer inebriante e gratuito, portanto, VENDE. Essa é a visão banal de todo um sistema reprodutor capaz de realizar o grande mistério universal: conceber a vida!

Para Freud, a fase da descoberta sexual do homem está em seus primeiros anos de vida, ligada ao desenvolvimento do Id. Vale explicar, de modo extremamente sucinto, que Freud neste momento, seduzido pelos estudos gregos de Platão, em sua aula de Filosofia, identifica o Id como uma das três divisões da alma do homem (Id, Superego, Ego) e é regido pelo princípio do prazer. É a reserva inconsciente dos desejos e impulsos de origem genética, voltados para a preservação e propagação da vida.

E finalmente, para um irmão consagrado, membro da Toca de Assis, morador das Casas Fraternas, o instinto sexual permanece latente em sua mente sendo controlado por seu voto de castidade que o inibe da visão sexualizada de qualquer assunto, seja ele comercial, seja ele ligado à carne ou pela simples fisiologia humana.


Mas para que foram apontadas estas três visões do instinto sexual e sua aplicabilidade neste texto?


A questão a que quero chegar com toda esta explicação é  a de que se o ato sexual é algo fisiológico, natural do homem, porque inibi-lo criando o voto de castidade, tornando assim o franciscano alguém que não pertence ao senso comum, diferenciando-o daqueles que tanto quer se aproximar na caridade para provarem que são tão iguais a ponto de se chamarem irmãos? E também, assim banalizar o fundamento principal do instinto sexual no homem que é a reprodução? Daí me pergunto: será que para eles que vivem tão puramente, o ato de se reproduzirem seria visto com os olhares do senso comum, uma vez que eles não compreendem este grupo? E ainda questiono mais: será justo deixar este desejo latente e optar por ocultar os reais anseios? E ainda não me privo a questionar: como Freud veria esta postura de suprimir um desejo involuntário que interfere até em seu processo de desenvolvimento do Id?

É como em conversa com um desses amigos toqueiros (e podem acreditar que isso de fato aconteceu, não causo aqui efeito sensacionalista  e sim relato, sem divulgar minha fonte, uma entrevista fornecida): “somos homens, somos feitos de carne e osso. Portanto, temos desejos também.”

A resposta talvez esteja em frustrações vividas no passado por estas pessoas e que lhe abriram os horizontes para a solução de terem uma vida em caridade. Frustrações estas em relacionamentos que se perderam, na falta destes relacionamentos que talvez nunca acontecessem, no uso de drogas, na vida de abandono nas ruas e nos albergues, na infertilidade ou pelo chamado vocacional que inunda os corações destes irmãos de fé no amor pelo Divino Mestre.

Então, para quê assumir a responsabilidade de dizer que negará ao instinto sexual se ele é tão divino quanto natural uma vez que estes irmãos de fé compreendem um grupo que não enxerga o mundo com os mesmos olhos do homem? Até quando eles se submeterão a sentirem o desejo fisiológico pela fêmea que os atrai, pelo cheiro do outro corpo que os instiga, pelas poluições noturnas (e pode parecer redundante, mas tenho que ressaltar que são involuntárias) e culminarem tudo isso em uma masturbação cheia de culpas por irem contra um voto feito e que pouco traz significância? Visto que se os irmãos são tão caridosos e divinos, habitar o mundo com filhos criados em berço tão magistral apenas traria uma nova geração de corações em fé e harmonia.

1 Comentário

Filed under Opinião

One response to “Outras Questões

  1. scd

    Ao entrarmos na era moderna, muito se ganhou, e muito se perdeu, e o que a sociedade perdeu foi ao nível do «eu» pessoal de cada um de nós, e desde então andamos perdido numa procura incessante pela… consciência?!

    Entramos, ou foi-nos imposta, uma tal geração «fast food», em que o próprio amor é «fast», o acto sexual também, as relações são um pesadelo e o divórcio foi simplificado (aqui em Portugal, pelo menos).

    Agora, estamos na geração digital, Geração M, e o futuro do «eu» não se vislumbra ser melhor. Teremos nós de encontrar um outro mundo no universo para que, finalmente, nos encontremos a nós mesmo?!

    Excelente artigo. Parabéns!

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