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Descrição dos nosso momentos durante a busca pela informação.

Transitoriedade da Toca de Assis

Depoimento  de uma ex-toqueira


Algumas pessoas entram para a Toca e permanecem. Outras terminam retornando ao lar, como é o caso de Ulieme Oliveira Cardoso, 23 anos, natural de Campinas/SP.

Ela entrou para a Toca em junho de 2002 e saiu em novembro de 2006. Como tudo começou, as impressões, as experiências, as reações da família e as emoções foram relatadas aqui. “Eu entrei pra Toca em 23 de junho de 2002 com 15 anos. Entrei, pois me encantei com o carisma. Gosto de cuidar e fazer o bem para as pessoas e sempre quis de alguma forma tentar mudar o mundo. Quando ouvi falar de São Francisco de Assis, me encantei pela história de vida dele. Era justamente o que eu queria fazer e tinha como filosofia esta frase: ‘Se queres mudar o mundo comece a partir da sua mudança’, então quis entrar pra toca, pois de todos os conventos franciscanos, a toca era a que mais se destacava com aquilo que eu queria viver, uma vida despojada voltada para o cuidado com o próximo, que mais necessita.

Antes de entrar, senti muito forte o chamado de Deus através da Bíblia na passagem de Ísaias 61. Foi ai que senti que Deus queria que eu o servisse.
Meus pais odiaram a idéia, mas nunca me impediram. Ficavam falando que não precisava tanto e que eu poderia servir a Deus no meu círculo de amizades e no meu cotidiano. Minha mãe falava toda vez no telefone para eu voltar. Já meu pai não falava nada, pois ele tinha muito medo que eu ficasse aqui fora e me perdesse no mundo.
Morei em vários lugares devido à vida missionária que tínhamos. A primeira casa foi a Chácara Santa Clara, em Campinas, onde fiquei por seis meses. Depois fui para o Rio de Janeiro na casa de Santa Tereza, para a casa Leprosário Curupaiti em Jacarepaguá também no Rio, para São Paulo na casa de pastoral de rua “Bom Samaritano”, depois Vila de Assis, Cotia, Vinhedo e por último em Santos.


De todos os lugares que passei, uma das casas que mais me chamaram atenção foi a Leprosário Curupaiti (RJ) pela situação dos moradores, pelo abandono que eles tinham pela sociedade. Não tinha acolhidos: nossa missão era curar nos corações dos leprosos as feridas da alma, e  cada dia nos ensinava uma coisa diferente e tínhamos força para viver. Chorava muito lá, mas sabia que cada lágrima era um novo aprendizado.
Teve também a casa Bom Samaritano (SP). Nesta casa pude vivenciar na pele o sofrimento dos moradores de rua convivendo com eles dentro da realidade deles. Estava nessa missão quando completei 18 anos e ganhei de presente de aniversário a autorização para dormir na rua com os miseráveis. Tive uma festa surpresa com enfeites feitos de papel higiênico, bem simples como eu queria. Foi nesta missão que voltei a estudar. Estudei numa escola de freiras com bolsa, mas não me dei muito bem porque não conseguia associar a vida religiosa aos estudos, pois me faltava tempo para estudar. Ficava no dilema entre estudar e a necessidade íntima de viver a profundidade do carisma. Então parei quando completei 18 anos.Outra casa que marcou foi a casa de Vinhedo, pela realidade das moradoras. Eram mulheres que tinham na carne as marcas da vida, algumas que foram abandonadas e outras que nem sabiam seu próprio nome ou nem podiam falar. E por fim e com carinho, me lembro da casa de Santa Tereza (RJ) que me chamou a atenção pela alegria que sentia lá. Era estranho: eu me sentia muito feliz, nunca me senti mal lá.

Sai da Toca em novembro de 2006. Tinha seis meses de noviciado e 5 anos de Toca de Assis.
Como eu era noviça, a mestra me levou em casa e lá eu tirei o hábito e o véu. Foi quando minha mãe me viu de véu pela 1ª vez e se arrependeu por ter pedido tanto para eu voltar. Meu pai me acolheu bem e disse que desde que eu fosse feliz, me apoiaria em tudo o que eu fizesse. Foi ruim pra mim, pois fiquei muito tempo lá e as duas realidades são muito distintas. Foi difícil me acostumar com a realidade daqui de fora, quase entrei em depressão, chorava todos os dias, nada me satisfazia, mas com o tempo fui aceitando, pois fui percebendo que era da vontade de Deus.
Hoje moro sozinha em Campinas e faço faculdade de enfermagem na Unicamp, namoro e sou muito feliz. Nunca voltei na Toca, mas se surgir alguma oportunidade gostaria muito de fazer pastoral, mas ultimamente ando sem tempo.
Digo com toda a certeza que esta fase da minha vida me ensinou a viver e a enxergar a vida com outros olhos, vale a pena viver; esta historia nunca irei apagar da minha vida e se possível escreverei ela em um diário com letras de ouro. Fui muito feliz na Toca, e hoje sou ainda mais feliz graças as experiências vividas lá. Jesus Sacramentado nosso Deus amado!”

Uli ( foto arquivo pessoal)

Depoimento concedido a Ana Paula P. Sandim e editado por Débora Gomes

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