Diário de Bordo

Apresentação Serraria Souza Pinto – Hoje foi ‘O dia’.

Posso resumir em um parágrafo a sensação que sentimos: mãos trêmulas, boca seca e medo do ‘branco’, por que em momentos de nervosismo sempre pensamos que vamos esquecer tudo. Sentimentos a flor da pele. Depois de alguns minutos ouvindo ao som de violino a oração de São Francisco de Assis, descobrimos que o trabalho iria fluir como planejado. Era uma das estandes mais cheias no momento, amigos, visitantes, professores e alunos faziam parte daquele momento. Tivemos presenças importantes na estande, o Grupo Urbano estudado, que acompanhou e compartilhou informações conosco, foram nos prestigiar . Após passar aquele momento, sentimos a tranqüilidade e a paz de dever cumprido.

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Viagem Campinas – 03/04 Outubro

Por Débora Gomes

30/10- O dia amanheceu bonito. Quais os planos? Lavar banheiro, tomar banho, arrumar minhas coisas na mochila e sair de casa rumo a Campinas.E foi assim…

Após encontrar Iara, João e Rapha, pegamos Ana pelo caminho e fomos para a Toca de Assis na Pampulha. Lembramos o caminho aos poucos (depois de alguns direita, direita, esquerda é claro). Ao chegar, Irmão Pátrus já nos aguardava para nos levar até Betim, de onde partiríamos para Campinas seguindo a Kombi da Toca. Foram horas de espera. E enquanto elas passavam, fomos explorando o Sitio Tão Sublime Sacramento guiados por Irmã Samira. Foi uma tarde de subir morro e casa na árvore, almoçar, conhecer mais acolhidos e a própria Toca sob cuidados femininos. Tarde agradável de descanso, sossego e ar mais puro.

Mas, como não podíamos nem queríamos ficar… 16 horas – saída

Irmão Geremias na direção da Kombi, nos guiou pelo caminho. E o sol? Abriu espaço para a chuva. Muita, forte, que me rendeu medo e apertões nos dedos de Ana.Após muitos pedágios, algumas paradas e muito chão, chegamos…00 hrs 04 min

Nova Campinas! As camas no chão nos esperavam. Irmã Kátia nos recebeu um pouco apreensiva, afinal já era tarde. Teria sido uma noite de silêncio… se não tivesse disparado o alarme do carro (culpa do Rapha) e se uma gargalhada medonha não tivesse nos tirado o sossego…Enfim, que escolha? Dormir. E foi o que fizemos.

04/10– Domingo foi dia de trabalho. Acordamos cedo. O movimento na casa começou as 5 hrs e 30 min e o nosso começou logo em seguida. Tomamos café, colocamos perguntas no papel. A Igreja? A gente não sabia chegar… a solução? Um táxi, para nos guiar.Chegando lá tudo fluiu sem a gente planejar. Quando vi, João já estava na sacada buscando (e encontrou) um campo de visão perfeito. Daí logo subiu Ana com a filmadora e Rapha ficou embaixo com a câmera menor e Iara buscando informações e João fotografando tudo que podia. E eu? Assisti a ordenação de camarote, fotografando bem na beira do altar. Nunca havia presenciado nada igual antes, cada movimento me despertava curiosidade e encanto e creio que um pouco de religiosidade também (confesso que ela esteve um pouco afastada de mim nos últimos tempos). Aí veio a emoção. Estar ali era estranho e bom ao mesmo tempo. Igreja cheia, muitos Toqueiros, muitos leigos devotos de São Francisco de Assis e eu ali, vendo tudo tão de perto, trabalhando como gente grande (risos).E o dia seguiu… almoço (e não é que Irmão Pátrus acertou o cardápio? Strogonof), conversa com Irmão Rafael, agora Pe. Rogério (e quase que a gente não conseguiu, já que ele precisava comer e estava a mais de 2 horas abraçando e abençoando pessoas), bolo de sobremesa, mais conversa, mais entrevistas, mais descobertas. Ou tivemos sorte, ou Deus quis mesmo nos ajudar.Visitamos a casa mãe (a primeira de todas as casas). O movimento estava grande mas Irmão Josué nos recebeu de braços abertos, cedendo parte do seu tempo para nos ouvir, esclarecer algumas dúvidas e dividir um pouco do seu mundo.Voltamos para a casa Nossa Senhora das Dores (onde dormimos). João foi descansar enquanto, numa conversa descontraída, conhecemos um pouco mais sobre a Toca. Irmã Fátima nos contou da rotina, dos acolhidos, da saudade, do chamado, da vocação.Fomos tratados com carinho, com amor. Cantamos no jardim (um dos momentos mais bonitos), jogamos UNO (e o Rapha ganhou duas vezes), jantamos, conversamos mais, ouvimos mais histórias, fiquei mais encantada e ao mesmo tempo intrigada: como pode existir pessoas tão felizes diante de tanta dor, tanta dificuldade, tanto sofrimento? (essa casa em que fomos recebidos, é a única que acolhe pessoas/pacientes que se encontram em fase terminal. A maioria deles já nem fala mais).

23 horas– hora de ir embora.

Despedidas são sempre tristes. E adivinhem: sim! Chorei. Não sei dizer por que. Acho que nunca senti tanto amor junto, num só lugar…

A viagem de volta não teve chuva, mas o cansaço bateu e uma pontinha de nervoso veio junto com ele. Cochilei. E ao chegar? Direto para o trabalho, a vida continua do lado de cá.Sono. Muito sono…

(Para variar, não sei como explicar. Voltei de Campinas um pouco impressionada com tantos jovens seguindo o mesmo caminho, vivendo o mesmo amor e as mesmas alegrias.O amor que senti lá veio em parte comigo para cá. Mas agora, na minha cabeça vivem dúvidas estranhas e certas e ao mesmo tempo, creio que comuns. Acho que preciso pensar e reavivar tudo na memória…)

foto: Débora e Irmã Fátima, na Casa Nossa Senhora das Dores – Campinas SP

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Viagem Campinas -03/04 Outubro –


Por Raphael Jota

“Bom final de semana Augusto, se der pra você ir de ônibus nos encontramos lá”, disseram João e Jota, entramos no carro junto com a Iara para buscarmos a Débora e a Ana, paramos no posto de gasolina da avenida Amazonas para calibrar os pneus e seguimos em direção a Toca de Assis na Pampulha. Fomos recebidos mais uma vez com muita alegria pelos irmãos que ali estavam, nos deram duas garrafas de água para seguir viagem, “são atitudes como estas que nos deixam emocionados”, comentamos. Ficamos cerca de trinta minutos na Toca até que irmão Patrus junto com o leigo Marcos nos levou até a casa das meninas em Betim. Fomos recebidos com muito carinho pela irmã Samira que nos mostrou toda a casa, “querem almoçar?”, perguntou a irmã, “claro”, respondemos de imediato, enquanto as outras irmãs faziam o almoço, tirávamos fotos e percorríamos todo o sítio.  Sentamos todos a mesa, fizemos uma oração e pronto, atacamos “educadamente” o prato de comida, esta era apenas nossa segunda refeição do dia, estávamos famintos, “que comida deliciosa”, comenta João e Iara, “já é o segundo final de semana que vocês me fazem almoçar”, comenta Ana, “João acho melhor você descansar um pouco”, diz Débora com a preocupação que momentos mais tarde estaríamos em alto estrada. Quando a kombi chegou já passavam das 15h e 30min, nos despedimos de todos e seguimos viagem. A estrada para Campinas estava ótima, boa sinalização, asfalto novo, tudo encaminhava para uma viagem tranqüila, quando por volta das 20h começou uma chuva muito forte e muita neblina, chegamos a perder a kombi de vista, ficamos muito tensos, João não desviava um minuto o seu olhar, eu muito tenso também não desviava o meu olhar da estrada, “Jota grava tudo isso”, disse Ana, “calma Ana agora não”, exclama Jota que indiretamente dirigia o carro junto com o João, Iara e Débora não esboçaram nem um ruído, foram os quarenta minutos mais tensos da viagem. Passado o perigo da chuva, cantamos músicas latinas, tomamos energéticos e seguimos viagem. A placa dizia “Campinas 89 km”, “está chegando”, pensei, “estamos chegando”, disse João, a noite já estava linda, céu cheio de estrelas, música tocando quando entramos em Campinas, agora era questão de minutos para chegarmos na casa “Maria das Dores”, irmão Patrus vai parando a kombi, “até que enfim chegamos”, indagamos. Fomos recebidos com muita alegria, ao poderíamos fazer muito barulho devido já passar das 00h 30min e as outras irmãs estarem dormindo, quando entramos já havia cinco colchões com cobertores no chão para dormimos, adoramos, andamos um pouco pela casa sorrateiramente para não incomodar ninguém quando descobrimos que o quarto ao lado tinha pessoas com estado grave de saúde, senhores que tinham derrame, acidente de carro, paralisia e que precisavam de cuidados. João foi tomar banho primeiro, quando voltou disse que a água estava gelada, mesmo assim fui logo após, entrei, fechei a porta e comecei a me banhar aos poucos, pois a água estava muito gelada como o João havia dito, fiquei uns cinco minutos me molhando aos poucos, desliguei o chuveiro e fui me secar, “meu Deus, cadê minha toalha, não acredito que esqueci”, pensei, mesmo molhado coloquei minhas roupas, quando cheguei na sala todos estavam rindo, pensei que fosse porque esqueci a toalha, “Jota você escutou a risada?”, pergunta João, “não que risada, vocês estão rindo porque esqueci a toalha”, respondi, João me falou que quando estava no banheiro, alguém deu uma risada muito alto que parecia ser de um fantasma, depois disso não voltei ao banheiro para me trocar e enxugar, me cobri com o cobertor e me troquei ali mesmo, no melhor estilo big brother. Acordei por volta de 07h 20min, Iara, Débora e Ana já estavam acordadas, a Ana puxou meu cobertor dizendo que eu estava muito “folgado” e que já era hora de acordar, “só mais dez minutos”, interroguei, não adiantou, levantei e fui esquentar meu pão. João acordou vinte minutos depois e também foi tomar café, conversamos um pouco e fomos nos trocar para iniciar os nossos trabalhos que nos levaram a Campinas. Saímos por volta de 9 h em direção a Igreja São Jose, eu e Débora fomos de táxi, João e as meninas vieram logo atrás. Ao chegarmos na Igreja parecia que eu, João, Ana, Débora e Iara já havíamos trabalhado há bastante tempo, cada um pegou uma ferramenta e fomos trabalhar. Gravamos, fotografamos e entrevistamos o tempo todo, pegamos muito material e experiência, conhecemos o Padre Rogério, os fundadores da Toca, a casa mãe, conhecemos mais um pouco da história da Toca de Assis. Quando deu 17h resolvemos voltar para a casa que estávamos hospedados, Débora e eu passamos primeiro para comprar pão, pois estávamos com muita fome, foi um dia desgastante. Quando chegamos a casa iniciou-se um dos momentos mais agradáveis desta viagem, as irmãs nos contaram suas histórias de vida, cantaram a oração de São Francisco e jogamos UNO (pra deixar claro, jogamos duas vezes e ganhei duas vezes), vimos alguns vídeos das gravações que fizemos no decorrer do dia, por volta de 20h fui descansar no quarto, acabei dormindo.

22h 15min: “Acorda Jota, vai arrumando suas coisas que daqui a pouco vamos embora”, foi o que escutei, não me lembro exatamente quem falou, fiz uma oração e levantei (ainda com sono) disposto a encarar mais oito horas de estrada ao lado do meu amigo João. Tomei banho (desta vez não esqueci a toalha) e fui jantar com o pessoal, um momento muito agradável. Cerca de meia hora mais tarde já estávamos com nossos pertences guardados e prontos para ir para casa, nos despedimos calorosamente das irmãs, fizemos uma oração e seguimos viagem. Campinas ficará nos meus pensamentos mais agradáveis, não por ser uma bela cidade (tenho certeza que é), pois não tivemos tempo de conhecê-la, mas por estar em um local agradável com pessoas boas e amáveis que tenho a honra e o orgulho de chamar de amigos.

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foto: Raphael Jota, em Betim antes de seguir viagem, com Penha acolhida pelos Toqueiros

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(…) fui ferida pelo amor, esse bem que nunca passa (…)

Por João Paulo Costa Jr.

08:12 h – é Sábado, despertador acorda! O sol fixa por instantes seu olhar nas janelas do quarto dele. O astro rei, com seus olhos brilhantes, não se faz de rogado e chega sorridente pelas frestas da cortina invadindo o sono de João.Como de costume, ele sente a cabeça pesada e com alguma preguiça levanta-se da cama. Sabe que necessita estar fisicamente e mentalmente bem para seguir dirigindo até Campinas junto de seus quatro amigos: Raphael Jota, Débora Gomes, Iara Fonseca e Ana Paula de Paiva. A responsabilidade o chama, o intima em prudência, afinal serão oito horas de estrada e ele é o único que irá dirigir. A ansiedade o consome.Toma seu café e reforça-se numa prece. Pega o carro e segue pelas ruas da cidade para encontrar-se com os outros estudantes. No trajeto lembra-se dos negros olhos que o miraram na noite anterior. O olhar ensurdecedor do “mudinho” que João encontrara na Pastoral de Rua não lhe saía da cabeça.Trânsito, carros, esquinas e encontros. Reúnem-se todos. João pára o carro na Avenida Amazonas a fim de abastecê-lo e calibrar seus pneus. Juntos seguem para o Toca de Assis na Pampulha.Ao chegar ao local, a mesma cordialidade, os mesmos abraços e calorosos sorrisos da semana anterior. Depois dos cumprimentos de praxe, o irmão Patrus e o leigo Marcus pegaram outro carro e seguiram, guiando os estudantes até uma chácara de um bairro afastado em Betim (outra Toca de Assis – só que de meninas). Novas oportunidades de matérias surgiram. João conhecia agora a faceta feminina da Toca de Assis.As “filhas” receberam todos muito bem, com entrevistas marcantes. Permitiram que as fotografassem. Permitiram aos estudantes conhecerem a casa fraterna. Permitiram, depois de falarem muito sobre elas mesmas, serem respeitadas e admiradas pelos estudantes. E ainda permitiram ao grupo que se deleitassem num gostoso almoço. Como sobremesa, com sabor de infância, a irmã Samira levou o grupo para visitar e subir numa casa de madeira construída sobre uma árvore, que foi apresentada orgulhosamente. “Que legal, sempre quis ter uma casa na árvore” – falava a criança dentro de João.Quem ficou gravado na memória de João? A irmã Samira por sua inteligência e verbalidade. O que marcou João? Mais uma vez um olhar. Só que agora era de uma noviça que orava fervorosamente aos pés do Santíssimo. Aquele momento João pintou em flashes. Usando da cara de pau daqueles que nada tem a perder, atreveu-se a entrar na sala de clausura e congelar aquele instante de pura fé. Talvez tenha desconcentrado e atrapalhado a pobre em suas orações, mas perdoou-se afirmando que “tudo era para um bem maior”.Em meio a tudo aquilo que vivenciava ainda não lhe saía da cabeça os olhos daquele morador de rua. “Que olhar era aquele?” – pensava o estudante.“Talvez seja um olhar displicente que esquece a presença da miséria. Ou apenas um olhar sigiloso que arquiva quadros dolorosos e cenas humilhantes. Pode ser um olhar deficiente que gesticula obediência e insatisfação frente aos desmandos de um sistema opressor que por vezes é sentido, mas não entendido. Talvez um olhar compreensivo que apaga os rastros de erros alheios. Um olhar que espreita o deslize da própria fraqueza de todos nós. É, não sei. Será um olhar generoso de um “Cristo” que abraça uma “Jerusalém” em chamas? Ou um olhar dor. Ou quem sabe um olhar apelo que suplica compaixão e ajuda ou ainda um olhar intransigência que cobra a última gota de sofrimento. É não sei. Espero que seja um olhar amor que unifica os que se querem bem. Mas poderia ser também um olhar ódio que esfaqueia os que se detestam e lhe viram às costas. Um olhar que acena o último suspiro de morte de um afogado. Um olhar esperança que deseja ardentemente sobreviver e respirar. Um olhar ansiedade, que fica na estrada acompanhando aquele que parte. É, não sei. Talvez um olhar do recém-nascido que anuncia a chegada de uma nova existência de mil possibilidades. Ou quem sabe um olhar do agonizante em seu leito de morte, que procura desesperadamente perpetuar sua existência entre os que ficam, entre os que tiveram oportunidades? É, não sei. Deve ser um olhar consciente que ativa a reflexão humana ou um olhar “coisificado”que manipula os homens como objetos. Diria talvez que é um olhar libertador, que retira o irmão do cativeiro moral. É, de fato deve ser um olhar evasivo que evita o encontro com a realidade. Poderia ser também um olhar pacificador que reconcilia e resgata “vidas passadas”. Um olhar “espelho”. Talvez um olhar perdão, que põe de pé quem estava caído. Um olhar encolhido, resignado. Um olhar pagão. Um olhar de fé. Negros olhos que revelam a última resistência do homem esmagado. Um olhar dilacerado. Um olhar “quebra-cabeças”. Um olhar “labirinto”. Um olhar que se refugia na solidão. Olhar que reascende em mim a presença de um “Deus Vivo”. É, não sei ainda. Pode ser que tenha sido uma linguagem inteligente que “Deus Vivo” usou para tocar em mim! Soar músicas que desconheço. Preciso decifrar as partituras destas músicas que este Deus tem tocado para mim! Este olhar foi para mim “canção nova”” – divagava o que lhe convinha.Duas horas se passaram e era chegado o momento de seguirem viagem. Na Kombi da frente, os Toqueiros, Leigos e Noviças iluminavam a estrada com os faróis de seus sorrisos. No carro que vinha atrás, no melhor estilo “Profissão Repórter”, nossos determinados estudantes seguiam apertados num “CELTA” (FUSCA moderno que se faz aprazível e indecente na medida em que se assemelha a uma lata de sardinha).E no encalço da matéria, literalmente, os estudantes experimentavam músicas latinas no som do carro, visões de caminhões enfumaçados pela correria, ultrapassagens perigosas, neblina de toda sorte, chuvas torrenciais, energéticos flamejantes, muita tensão, dois maços de cigarros, paradas para “xixi’s revigorantes”, sono, ansiedades, comilanças, novamente chuva, cansaços, estresses, risadas, pedágios de R$1,10, gasolinas adulteradas, pneus queimados,quilômetros e quilômetros.Chegaram exaustos em Campinas por volta das onze da noite. Toca de Assis – Casa Nossa Senhora das Dores. Era ali onde nossos estudantes ficariam aquela noite. Conheceram rapidamente a casa. As irmãs que ainda estavam acordadas prepararam carinhosamente colchões e cobertores.Banho. Era idéia fixa de João. Atreveu-se! Passou na pontinha dos pés pela saleta em que estavam os irmãos doentes e entrou no banheiro para lavar-se. Homem de sorte, a água estava glacial. Não hesitou, enfiou-se debaixo d’água assim mesmo.Passadas as tensas horas de estrada, seu corpo só queria cama. Pelo andar das horas e por tratar-se de uma casa em que são acolhidos irmãos em estágio terminal, tentou não fazer barulho. Fracassou, mas dividiu a glória com seus amigos.Quando todos já estavam prestes a se deitarem, ouviram uma gargalhada bizarra, dessas de filme de terror. “Meu Deus do Céu, o que é isso?” – pensou o medroso. Por fim, acalmou-se. “Boa noite moçada”.  Pensou nela, abraçou o travesseiro como se fosse ela, adormeceu.Manhã seguinte. Ironia do destino ou não era o dia de São Francisco de Assis. Com disposição, João foi tomar café acompanhado de seus amigos. Registrou algumas fotografias e adorou “de cara” as irmãs da casa de Campinas. Passou pelos quartos dos doentes terminais. O João, o João que gosta de ser forte não resistiu. Injuriou a Deus pelos sofrimentos daqueles idosos. Por fim, pediu perdão pelas injúrias e calado seguiu para o carro. Desta vez não conseguiu chorar.

08:09 h – o dever os chamavam. Seguiu com seus amigos para a Paróquia São José onde iriam cobrir a ordenação do irmão Rafael como padre.Ele fotografou, entrevistou, correu “dois mil metros pela Igreja lotada”. Buscou olhares sem se esquecer dos “olhos do mudinho”.Conheceu muita gente, registrou em sua memória muitas histórias e muitos olhares. Conversou com irmãos e irmãs de outras casas espalhadas pelo Brasil, conheceu a “Casa Mãe” e alguns dos co-fundadores da Fraternidade Aliança Toca de Assis.Depois de muito trabalho, sol quente e suor os estudantes e João descansaram. Descansaram nossos heróis num almoço que saiu por volta das quatro da tarde, atrás da Igreja, num salão limpo com comida apetitosa.Mais apetitosa ainda foram as conversas já na Casa das Meninas (Casa Nossa Senhora das Dores), quando retornaram do trabalho. Elas, de uma simpatia ímpar, tocaram os corações de todos. Como se esquecer da doçura da irmã Fátima e das outras meninas? O jantar fora um banquete. E João, que adora viajar e conhecer lugares novos, nem se lembrou de conhecer Campinas. Sentia-se em casa e naquela casa permaneceria por um bom tempo se não tivesse que retornar para Belo Horizonte. “Deve ser linda Campinas, mas hoje, pelo trabalho legal que desenvolvemos, prefiro ficar na companhia destas pessoas queridas que conhecer a terra da Sandy” – comentou João com seu amigo Raphael Jota.Barriga cheia e corpo cansado. João tira um cochilo para se recompor, afinal ainda havia mais oito horas de estrada pela frente. Quando acorda, encontra todos os seus amigos e meninas da casa num ambiente descontraído de fraterna amizade. Alegra-se.

23:05 h – Hora de partir. Débora, Iara e Ana se despedem em lágrimas das irmãs que as acolheram. João despede-se com um nó na garganta que não conseguiu entender. Olha para os lados, despede-se também daquele ambiente. E no jardinzinho de frente da casa encontra a mais sublime resposta para seus inúmeros questionamentos sobre aqueles negros olhos que o deixaram aturdido dois dias atrás. No meio do jardinzinho, João vê uma frase pintada graciosamente numa pedra, que dizia: “fui ferida pelo amor, esse bem que nunca passa…”
“Putz”‘! Sim! Obrigado meu Deus! Entendi o recado!” – ele pensa – “Fui ferido pelo amor daqueles negros olhos que me miraram. Olhos que eram, na verdade, os “Seus” silenciosos e pacíficos olhos”.

Foto: João Paulo e Irmão Josué Casa Mãe Campinas SP

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Pastoral de Rua -02 de Outubro –

“(…) eles procuram realmente estar ao lado dos que sofrem nas ruas, penetrando no coração de cada um, levando um pouco de conforto (…)”

Por Silvana Ferreira

Em um primeiro momento, ao tentar registrar esta nova experiência, recordei-me de outra que tive com o pessoal da Pastoral de Rua da Igreja de Santa Efigênia dos Militares, no bairro Santa Efigênia. Mas, de antemão, pelo pouco que ainda conhecia da Toca de Assis, sabia que iria ser algo muito mais rico e gratificante, pois os toqueiros não apenas levam o pão e o suco para alimentar os que precisam do mínimo necessário: eles gastam também o tempo que fôr preciso com cada um, os escutando e dando atenção, que é o principal alimento.Neste primeiro contato com a Pastoral de Rua da Toca, nos encontramos na Faculdade e fomos até o local combinado. A alegria manifestada nos rostos de todos os toqueiros e leigos ao nos verem, retratou fielmente o que aquelas pessoas vivenciam diariamente nas ruas ressaltando o prazer com que fazem aquilo em que acreditam.Embora já conhecesse um pouco o trabalho da Toca de Assis, e tendo alguma experiência em serviço voluntário, me surpreendi justamente com o pessoal do grupo. Pelo que pude observar, ao ver e sentir muito de perto todo o trabalho, percebi o quanto aquelas pessoas (toqueiros e leigos) estavam realmente inteiras ali e abertas a ajudar o próximo, escutar e sofrer junto com os moradores de rua. Alguns relatos, entrevistas e depoimentos chamaram-me mais atenção, além de provocar maior comoção e reflexão. Logo no início deste encontro tive a agradável oportunidade e muita sorte em conhecer uma “toqueira” chamada Tamires e uma leiga chamada Nelma. No dia após, no sábado, houve uma “coincidência incrível” que mais tarde irei contar. Nelma contou-me muitas coisas. Contou-me situações vividas pelos toqueiros nas ruas, inclusive algumas críticas e xingamentos que já sofreram. Falou-me da maneira como ela estava vivenciando em especial aquele momento e a questão de seu carisma particular. Após viver um certo distanciamento, retornava à Pastoral de Rua tentando encontrar em sua vocação pastoral, a vontade de Deus. Trocamos algumas idéias e experiências comuns, ela expressava uma grande confiança em tão pouco tempo, revelando-me algo que para ela era de suma importância, de como ela sentiu em sua vida o primeiro e real contato com Jesus Cristo na pessoa de um irmão de rua. Mais adiante, encontramos mais pessoas nas ruas, mas uma pessoa em especial chamou minha atenção por tratar-se de pessoa de enorme cultura e informação: Seu João. A irmã Tamires, conversava com ele como se o conhecesse há anos e percebi que ele conhecia literatura e filosofia. Citava muito Guimarães Rosa, conhecia sua vida e obra, revelou-nos estar desempregado há bastante tempo e que esta era sua maior dor. Naquela sexta-feira, havia feito uma entrevista de emprego e mostrava-se esperançoso, mas não sem deixar transparecer uma mágoa e tristeza em seus olhos. Ele saboreava verdadeiramente aquele sanduíche que lhe fora dado, aconselhava-se em sua trajetória e vocação com a irmã Tamires. E disse algo que eu jamais esperaria ouvir de um morador de rua. “Eu sou feliz. De repente a gente vê novos horizontes. E vê que pode ser mais feliz ainda”. Percebi então com muita clareza e emoção, que os toqueiros, na sua maioria, são movidos por enorme coragem e esperança no “humano”, eles procuram realmente estar ao lado dos que sofrem nas ruas, penetrando no coração de cada um, levando um pouco de conforto, uma palavra àqueles que por motivos vários, se sentem perdidos, feridos na alma, machucados por dentro e por fora, vivendo grandes humilhações em suas vidas.


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foto: João Paulo, Irmã Tamires e Silvania- Pastoral de Rua- Belo Horizonte MG

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Pastoral de Rua -02 de Outubro –

Encontrar com eles foi como água gelada para o verão: um alívio”.

Por Augusto César Fortes

Ao entrar na sala, um clima tão frio tomou conta de mim. Pensei em desistir. Olhei bem a minha volta onde todos estavam muito próximos e afins. Me senti estranho. (E eu não gosto de me sentir assim). A sensação de que eu era apenas mais um e não mais “o cara…” me dominou. Saí de perto, discursei negativamente. Ouvi demais, filtrei de menos. Nada como o tal do dia seguinte pra revigorar as energias. Fluidos se renovam e dão ares de maior esperança de que as coisas podem melhorar.
Uma nova entrada na sala, uma nova abordagem, já com mais carinho, conversas espiritualistas e uma cervejinha pra fechar a noite: UM BRINDE A MINHA VOLTA!
E toda volta tem que ser cheia de vigor… Força Total!!! A mesma força que saiu de uma mesa de bar onde amigos brindavam futuras promessas jornalisticas com seus dons e afins e me devolveu o foco que precisava para retomar a caminhada de onde eu parei. (Foco, galera. Eu preciso de Foco!!!).
Sexta feira, 2 de outubro de 2009, começa a empreitada… Uma chuva torrencial desabou em Itabirito minutos antes de tomar a van que me levaria até a porta da faculdade, onde encontraria a turma para a tarefa do dia: Pastoral com os “franciscanos” (ou Chiquinhos, como me veio em pensamento). Era uma noite em que os irmãos consagrados ou não, somados aos leigos saíam pelas ruas de Belo Horizonte para assumirem atos de solidariedade cortando os cabelos, aparando as barbas, curando suas feridas, dando o que comer e beber aos moradores de rua (que antes para mim eram mendigos e agora respeitosamente viraram irmãos de rua). Mas a vontade era tanta, somada à necessidade de fazer parte daquele grupo que era tão meu que o ego pedia que eu fosse com tamanha força quanto um chamamento divino. E Fui!
A chegada foi tranquila, mas a caminhada até a rodoviária a pé… (Nem me lembre). Uma sombrinha para três pessoas… (e muitos risos).
Encontrar com eles foi como água gelada para o verão: um alívio.
Confesso que ali existia um misto de medo (sei lá o que vinha por aí…) e também de curiosidade (mais medo de ser assaltado que qualquer outra coisa, na verdade). E depois de divididos, magicamente o medo sumiu e o faro de repórter aguçou em mim. E gostei. Fui repórter, entrevistador, fotógrafo (sem contar o ego que me dominava e me fazia enxergar âncora de minhas próprias coletas), investigador e tudo mais que tive direito. Mas acima de tudo, fui humano. E me vi tão pequeno na minha mesquinhez de chegar a dias atrás ao lado de amigos que me querem tão bem e dizer que o problema (que era unicamente meu) estava neles… (Estupidez tem dessas coisas). Aquelas pessoas pedindo por tão pouco, outras nem pedindo e eu, narcisista e egocêntrico, reivindicando que meus amigos me procurassem quando na verdade era eu quem me afastava. Foi essa a ponte que me abriu horizontes para ter certeza de que, de agora em diante, escreverei com mais fraternidade lembrando que conforto, alegria e solidariedade também são noticiáveis.
E que venham meus trabalhos a partir de agora… Tenho amigos, irmãos consagrados e um coração fraterno pronto para trabalhar aqui!!!!
FRATELLO SOLE, SORELLA LUNA! (O bordão pegou)!


foto: Agusto e Irmão João Batista Pastoral de rua Belo Horizonte MG

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Pastoral de Rua

Descalços por uma BH que ninguém vê

Por Pedro Leão

Na esquina da Carijós com Paraná, no coração do centro da capital mineira vamos ao encontro dos Toqueiros.Assentados na porta de um comercio um grupo com cerca de 9 pessoas conversam. Cumprimentamos um dos jovens e logo fomos apresentados a todos.Eles esperavam a outra parte do grupo que já havia anunciado que estava para chegar.O grupo que chega depois é composto por membros da Toca e vem vestido a caráter.Com suas longas e grossas túnicas marrons e cabelos cortados como o santo que reverenciam.Todas as pessoas se cumprimentam com familiaridade e afeto,os irmãos são entusiasticamente abraçados por aqueles que se dispuseram a ajudar em mais uma noite de trabalhos voluntários pelo centro de Belo Horizonte.Logo se forma uma roda muito disforme, que cresce e é organizada por um dos irmãos.Vamos fazer a reza logo, propõe um dos voluntários.De mãos dadas e em voz alta todos começam a rezar uma Ave-Maria.No fundo um carro tocava em altíssimo volume um musica do cantor MV Bill.Terminada a reza, fomos ao carro da toca para ajudar os irmãos a descarregar os cobertores que seriam distribuídos naquela noite.Rapidamente surge o primeiro grupo de moradores de rua.O que nos faz pensar que o trabalho e os toqueiros já são conhecidos na região.São quatro homens de meia idade e um jovem que aparentava uns vinte anos.Todos visivelmente alterados pelo álcool ou simplesmente pela condição indigna de vida.Sujos,fétidos e alterados, estas pessoas não são excluídas apenas em dados oficiais e índices de desempenho social.Elas habitam lugares onde a cidade não as vê.A Avenida Paraná e seus arredores é um verdadeiro albergue a céu aberto.Nas suas estreitas marquises e toldos dezenas, talvez centenas de pessoas vivem na mais absoluta miséria e indignidade.Sem nenhuma segurança,estabilidade, convívio harmônico e condições de higiene, estes homens e mulheres sobrevivem expostos a uma dura realidade onde não há paz, nem calma, muito menos uma possibilidade de melhora pela frente.Aqueles que passam pelos carros, taxis e coletivos olham com desprezo, medo,nojo e talvez alguns poucos com determinada solidariedade.Isso me instigou a analisar o lado dos toqueiros.Quem são esses jovens e mulheres que numa sexta a noite enquanto a cidade oferecia shows, bares e outras tantas tentações prazerosas e mundanas estavam nas ruas escuras de Belo Horizonte, conversando, tocando,olhando no olho daqueles que ninguém quer ver.Descendo uns 4 quarteirões, agora muito próximo ao mercado novo, encontramos um senhor que carregava seu carrinho de papel.Alguns irmãos conversavam com ele e lhe davam um lanche.Do outro lado da rua em uma marquise estava um homem, escorado no chão e aparentemente alterado.Uma irmã então ao ver a situação do individuo, se propôs a levar para ele um lanche e um cobertor.Veio então nossa surpresa. O homem não só negou a ajuda como expulsou com rispidez todos que se aproximaram dele. Orgulho?Vergonha?Loucura?

É difícil interpretar o pensamento destas pessoas. No geral a reação é muito respeitosa.Mesmo estando em uma das regiões mais perigosas de Belo Horizonte, me senti extremamente seguro ao lado dos irmãos.A população de rua, os pequenos marginais sabem quem são aquelas pessoas.É como se eles tivessem uma permissão para freqüentar aquele lugar onde ninguém entra, nem a lei, nem a policia nem o estado.Alguns moradores de rua demonstram um determinado espanto.Não acreditam que alguém esteja ali para lhe dar algo, ou mesmo o chamar de irmão sem lhe cobrar nada, sem lhe julgar pela sua asquerosa figura.O trabalho dos toqueiros é talvez o único contato mais humano que estas pessoas tem.Deve-se a isso o respeito das ruas.

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Pastoral de Rua – 02 de Outubro

 

“Um silêncio tomou conta de mim”

Por Bruno Moreira Pinheiro

Acordei na manhã do dia do encontro com os Toqueiros sentindo que seria um dia para, além de conhecer o que eles são, ter a oportunidade de sair na rua com intuito de realmente ajudar quem precisa. À tarde, comentei com minha irmã sobre as minhas expectativas e o que eu esperava ver logo mais. Ela, percebendo que eu estava nervoso, disse que tudo daria certo e que seria uma experiência incrível.
Faltando alguns minutos para sair de casa fui tomar um banho e organizar as coisas na minha mochila. Fiz tudo muito rápido pois meu pai já me esperava na rua para me levar atá o bairro Santa Tereza (uma das casas dos Toqueiros). No caminho não falei muito, o que fez meu pai me perguntar se eu estava ansioso. Respondi que sim mas permaneci calado até chegar ao nosso destino.Quando cheguei a casa dos Toqueiros, tive uma breve sensação de que estava no lugar errado pois estava tudo apagado e nenhum dos meu colegas de grupo estavam na porta. Resolvi tocar o interfone para saber o que havia acontecido. Fui atendido por uma mulher que, extremamente educada, me disse que os meus colegas estavam indo para a rua Paraná para acompanhar a pastoral. Me bateu uma profunda tristeza pois eu estava muito longe deles, estava chovendo e eu deveria pegar um ônibus para chegar lá. Com uma vontade incalculável de ter a experiência de acompanhá-los, peguei um ônibus para me juntar aos demais no lugar mencionado pela Toqueira. No caminho, Augusto (membro do nosso grupo) me ligou preocupado pois não sabia que eu já estava sabendo que nosso encontro não seria mais no Santa Tereza. Depois de algumas explicações, fiz questão de confortá-lo pois já estava a caminho.
Chegando no centro me deparei com os Toqueiros vestidos com uma roupa larga marrom, com os leigos (pessoas que ajudam na pastoral voluntariamente) e com os meus colegas de grupo que também já haviam passado por dificuldades para chegar lá. Depois de alguma conversa, e muita curiosidade da minha parte, fomos divididos em dois grupo: eu, Augusto, João e Silvânia ficamos juntos. E a noite foi passando. Eu como um curioso nato, sempre perguntando e conversando tanto com o povo de rua quanto com os leigos e os toqueiros que sempre nos respondiam com a maior educação possível.
Quando novamente todos se reencontraram, houve uma reza e caminhamos juntos para a rodoviária onde o carro do João estava. Um silêncio tomou conta de mim, pois havia absorvido muita informação ao mesmo tempo. Me sentia diferente, pois tinha conhecido um mundo que sempre esteve ao meu lado, mas que eu nunca havia percebido.
Despedi dos meus colegas de grupo e fui em direção ao ponto de ônibus para ir para casa pensar um pouco no que havia acontecido…

foto: Bruno juntamente como os irmãos de rua, leigos e Irmão João Batista Pastoral de rua Belo Horizonte MG

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Pastoral de Rua -02 de Outubro –

“Ainda não sei explicar em palavras o que senti”.

Por Débora Tomaz

A semana passou depressa. As provas todos os dias fizeram o tempo voar e eis aqui a tão esperada sexta-feira.

Acordei cedo e ainda tinha sono (dormi tarde na quinta. Acho que um café fez efeito _ me ligou no 220 _ faxinei cantando! _ não deu pra escapar da minha semana de faxina na república). O dia passou como se não fosse passar. E pra completar? Chuva! Bem na hora de sair do trabalho (18 horas)… “É. Acho que estiou”. Me despedi, saí. Teve confraternização no trabalho. Não pude ficar. Não quis ficar…

Chegando na UNA para me encontrar com o grupo para seguirmos juntos para a Toca no bairro Santa Tereza, vejo Ana, Augusto, Silvânia.

“Cadê o João?” (pergunto)

“Foi na casa do Jota” (Augusto)

“Iara ligou desesperada! Está presa na Amazonas. Engarrafamento, chuva!” (Ana)

Fui para cantina. Precisava de um café. E chega Iara e não é mais no Santa Tereza. Agora é delegacia da rua Paraná. E nada do João. E nada do Jota. Decidimos ir andando, a pé mesmo. Ficaram Jesus e Sivânia para ir de carro com João. Ana foi pra casa. Não estava se sentindo muito bem.

E chove no caminho. E gente sem sombrinha. E uma volta no quarteirão. E cadê? Nada. “Delegacia? Mas aqui não é delegacia. A delegacia mesmo fica a dois quarteirões!”. E todos juntos, caminhamos em passos rápidos pra lá. E não é que encontramos? Irmão Ágape e Irmão João Batista, que alegria em revê-los. Junto a eles, mais amigos que seguiriam conosco na caminhada.

O grupo grande é dividido em dois: “Metade vai para cima e a outra metade para baixo”. Máquina fotográfica… cadê? Só a minha. E voltam Iara, João e Bruno (Sim! O Bruno estava lá. Chegou depois, sozinho).

Uma oração. E todos se separam…

Caminhamos. A cada parada uma história. A cada história um aperto no coração.A primeira de todas elas me marcou. Um senhor, sentado, sem forças pra falar, pegar o copo de suco, comer um pedaço de pão. Irmão Ágape (sempre sorridente), conversou, entendeu o nome, o bairro em que morava, perguntou pela família! Silêncio…

Seguimos. Pelo caminho, pessoas dormiam em caixas de papelão. Pelo caminho: barba feita e unhas cortadas. Mais pão, mais suco, confiança, rostos tristes sorriam… pelo caminho, Carlos Acácio e Iara se encantou. Ouvi coisas bonitas. Tânia, que caminhava conosco ajudando na pastoral, explicou tudo que estava acontecendo com uma só palavra: AMOR.

Nesta noite, passei por ruas que não conhecia. Cantamos (quer dizer: tentei cantar). Vi a alegria se abrir em rostos tão tristes. Percebi que é mesmo preciso tão pouco e compreendi que as vezes um olhar de desprezo, uma palavra ofensiva, um simples gesto de indiferença pode ferir mais que qualquer outra dor.

23 horas – Hora de voltar ao local de encontro para reencontrar os amigos. Aquele senhor, o primeiro?Estava lá, no mesmo lugar, cabeça baixa, mesmo jeito. Sim, eu vi…

Comemos o que sobrou. Um pouco de suco, alguns pães. Estava cansada e com fome. Veio um homem. Disse e acertou a idade do Rapha, depois a minha, a de Bruno (amigo da Pastoral) e lendo mão, disse verdades ou mentiras? A gente nunca vai saber…

E chega o outro grupo. Mãos dadas. Agradecimento pela noite. Oração de São Francisco (cantamos). Engoli o choro. Por pouco tempo. Não resisti. Não segurei. Chorei em meio a abraços e agradecimentos. Nos despedimos.  Eu precisava pensar… e lembrar de tudo, tomar um banho, dormir em paz.As ruas a noite são diferentes. Depois desta noite, creio que nunca mais olharei as ruas com os mesmos olhos da noite de ontem…

Ainda não sei explicar em palavras o que senti.

(Amanhã seguimos pra Campinas. Não sei o que nos espera por lá. Iara disse que está gostando da minha sensibilidade. Disse que contagiei. Boa viagem para nós… algo me diz que será um fim de semana especial…)

foto: Débora, morador de rua José Acacio e Raphael Jota Pastoral de rua Belo Horizonte MG

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Sexta-feira, dia 02 de outubro de 2009 – Pastoral de rua.

“Enquanto grande parte de nossa sociedade identifica os moradores de rua como “animais” ou “seres invisíveis”, os Toqueiros e os voluntários valorizam a irmandade, fundamental para o desenvolvimento de muitas vidas”.

Por Iara Fonseca

Sabia que seria uma data especial e que muita coisa estaria por vir. Após um dia movimentado no trabalho, chega 17 horas: fim do expediente.
Chegando em casa, procurei estabelecer bases, organizando meus pensamentos, criando certa distância de tudo que havia acontecido até então.
Na partida para meu destino, logo no início do trajeto, percebo o céu bem escuro e nublado. Olhando o vidro da janela que estava com pequenas gotículas de água pensei que tudo corria bem, já que o trânsito fluía normalmente. Já na Avenida Amazonas: ventos, relâmpagos, chuva forte! Causando um grande congestionamento, tudo parado. Entrei em desespero: “Não vai dar tempo de chegar. E esse ônibus que não anda, e não dá pra cortar caminho e será que terá pastoral?”.
As ligações foram muitas. Liguei para Débora, João Paulo, Augusto, Raphael e até para a casa dos Toqueiros na região da Pampulha, mas ninguém atendia, então resolvi mandar uma mensagem para o Rapha: “Que chuva! Estou agarrada no trânsito com muitas sacolas, então não posso descer e desviar o caminho. Vou atrasar. E acho que não terá Pastoral de rua hoje.”
Finalmente o telefone tocou. Era ele e João, preocupados , questionando onde eu estava e se poderiam me buscar. Mas ainda estava bem distante e finalmente o trânsito começou a fluir.
Mas ainda existia uma preocupação: a Pastoral de Rua. Eu ligava, ligava, ligava, mas ninguém atendia. Comecei a pensar que provavelmente todos já teriam saído para a Pastoral.
Após um longo período no trânsito chego ao ponto de encontro: Centro Universitário UNA. Os meninos ainda não tinham chegado. Fui caminhando e me deparei com Ana e nosso material de trabalho: várias malas com câmera fotográfica, filmadora, tripé e gravador para o dia seguinte. Foi engraçado: ela cheia de malas, eu cheia de sacolas e efetuando ligações. Deixei as coisas com ela enquanto tentava resolver tudo.E então chegaram Silvania, Augusto, Débora e Jesus. O combinado era estar as 20 horas na casa das Irmãs, no bairro Santa Tereza, ponto de encontro dos Toqueiros. Quando consegui falar com alguém da Toca, fui informada que melhor seria se seguíssemos direto para a rua Paraná, próximo a rodoviária.
Meu celular tocou mais uma vez. Era Raphael. Passei a ele todas as informações que recebi e como ele e João demorariam a chegar, resolvemos (Débora, Augusto e eu) seguir a pé. Ana não iria a pastoral. Deixei as sacolas para que ela as entregasse a João e Rapha, me despedi e caminhamos.
A chuva havia dado uma trégua, mas na metade do caminho resolveu aparecer novamente. E eu estava sem sombrinha, mas nem assim paramos.
O telefone tocava de minuto em minuto. Sempre os meninos, querendo saber de Jesus, Silvania e Ana. E ainda tinha minhas sacolas!!!!
Pronto. Todos já estavam rumo a nosso encontro. Ainda faltava Bruno. Augusto ligou para ele: “Nossa! Ele foi direto para o Santa Tereza, mas já está vindo nos encontrar”.
Chegamos, já todos juntos. Além dos Toqueiros, encontramos outras pessoas: os voluntários. Foi uma ótima surpresa. Eles estavam preparados com pães com salame, suco e grandes corações dispostos a amar e ajudar.E então fomos divididos em dois grupos. Permaneci com Irmão Ágape, Irmã Elisa, Débora, Raphael, Jesus e mais alguns voluntários. Assim nosso trabalho se iniciou. Seguimos pelas ruas de Belo Horizonte descobrindo rostos, pessoas, intelectuais, histórias de vida…
É fascinante como os membros da Toca olham esses indivíduos: pessoas como eu, como você, mas que por mero acaso, vícios ou abandono da família caíram nas ruas.
Pessoas carentes de atenção, sempre em busca do outro, da auto-estima e reconstrução da personalidade.
O abraço, uma palavra, um gesto de carinho, de atenção, um aperto de mão… tudo acontece naturalmente.
Enquanto grande parte de nossa sociedade identifica os moradores de rua como “animais” ou “seres invisíveis”, os Toqueiros e os voluntários valorizam a irmandade, fundamental para o desenvolvimento de muitas vidas.A cada pão um sorriso. A cada abraço uma alegria. Em cada rosto um grito de justiça, de socorro, um pedido por uma vida melhor.
E um desses personagens de rua, em especial me chamou atenção.Carlos Acácio. Homem de 45 anos, regente, de família com grande poder aquisitivo.Me chamou atenção diante de tanto talento, domínio da oratória e simpatia.O que faria uma pessoa com aquele talento estar nas ruas? O vício, a bebida, o álcool.Fui contagiada imediatamente. E o fato não sai da minha cabeça. Às vezes é estranho pensar que eles permanecem ali, nas ruas. Chuva, sol e ele ali…
Nesses momentos nas ruas, os Toqueiros assumem um poder de transformação, criando durante um certo período um conforto , ultrapassando barreiras sociais, conceitos e paradigmas.


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– Pastoral de Rua- Avenida Paraná – 02 de Outubro


(…) quero trazer à memória o que me pode dar esperança (…) LAM/V 3.21.

Por João Paulo Costa Jr.

18:12 h – marca o relógio. Chove. O sinal de trânsito fecha. João sente seus olhos cansados. Olha no retrovisor do carro e não vê muita coisa. Somente chuva caindo e anônimos faróis de carros que passam ligeiros. Tenta identificar alguém e se depara com as garras afiadas de olhos apressados em rostos automáticos sem expressões que nada mais querem a não ser se esconderem do temporal e na correria, ainda automáticos, retornarem para suas “tocas”.
A chuva em princípio chega de mansinho como quem não quer nada para desacelerar o dia nublado dos apressados. Mas, assim como a alma humana, também tem momentos de fúria e relâmpagos. Vem forte e convicta. Chega balsâmica molhando tudo que se pode molhar, lavando o cinza da cidade e resfriando o ardor da miséria urbana…
“Miséria urbana” – pensa João. “Daqui a pouco irei presenciar isto junto aos Toqueiros que realizarão mais uma Pastoral de Rua no centro da cidade. O que será que me espera após esta chuva? Famintos, desesperados, excluídos e marginalizados? Caia chuva, lave mesmo minh’alma e às daqueles que mais necessitam” – divaga o estudante.
Buzinas gritam. Desaforadas e impacientes. O sinal de trânsito abre. João arranca o carro procurando uma vaga para estacionar.
Passados trinta minutos, João que já estava à porta da Faculdade se encontra com seu fiel escudeiro e amigo Raphael Jota.  Juntos, pegam o carro e cortam a cidade debaixo de muita água para passarem rapidamente na casa de Jota e seguirem enfim, no encalço da matéria, suas “vias crucis” de futuros jornalistas. Avenida Paraná e ruas Carijós, Tupis, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba são onde irão trabalhar na noite que chega sorrateira.
São 20:03 h. Todos já estão na Avenida Paraná aguardando os dois amigos chegarem. Os Toqueiros já estão a postos para iniciar o trabalho de Pastoral de Rua. Ele é recebido com afetuosos sorrisos e abraços. Alegra-se.
Percebe algo novo, os Toqueiros estavam cercados por outras pessoas que estavam naquele local para ajudarem nos trabalhos de assistência aos moradores de rua. São os “Leigos da Toca de Assis”. Figuras que aceitam o carisma franciscano de coração, mas, sem fazerem os votos de pobreza, castidade e obediência dos membros da Toca de Assis.
Os Toqueiros e os Leigos traziam kit’s de primeiros socorros, sucos em garrafas de 10 litros, copos descartáveis, duas sacolas lotadas de sanduíches, tesouras, navalhas, palavras amigas, disposição e muito amor ao próximo. O João, o nosso João, trazia curiosidade e um coração aberto.
A chuva dá uma trégua. São agora oito estudantes para realizarem o trabalho de campo com os Toqueiros e os Leigos. Partindo da Avenida Paraná, o grupo se separa com quatro estudantes de um lado e quatro do outro. Uns descem as ruas do centro da cidade e os outros seguem no sentido inverso. Começava de fato a Pastoral de Rua.
Então, Augusto Fortes, Bruno Moreira, Silvana Ferreira e João se juntam ao irmão João Batista, irmã Tamires e aos outros Leigos que estavam ansiosos para “botar a mão na massa”. Do ponto de encontro mesmo iniciaram os trabalhos com os moradores de rua que estavam por perto.
Começaram com moradores das calçadas da Avenida Paraná. Foi chegando um, outro, três, quatro, cinco, muitos, na verdade. Todos, respaldados talvez por um código de ética que existe entre àqueles que vivem nas ruas. Este código não permite agressões, furtos ou desrespeito a quem os ajuda. Alguns dos assistidos em princípio, na escuridão das ruas quando se aproximavam do grupo  assustavam um pouco por  suas aparências horríveis, maltrapilhas e mal-cheirosas. Mas, percebendo este código de segurança e civilidade, João não se incomodou ou tampouco ficou acuado com medo de ser roubado ou agredido. Muito pelo contrário, aproximou-se e quis saber mais das vidas de cada morador de rua que chegava cumprimentando-o fraternalmente.

Ali, na Avenida Paraná, o trabalho corria ligeiro, os irmãos tanto Toqueiros quanto Leigos cortavam cabelos, faziam barbas e distribuíam sanduíches. O irmão João Batista instruía João e os outros estudantes sobre o trabalho e as histórias de vida dos moradores de rua que já conhecia. Contava-lhes histórias e esclarecia que “o mais importante do trabalho não era alimentar os moradores de rua matando suas fomes físicas, mas; sim, alimentar e matar a fome de seus espíritos e corações”. Ele que seis dias antes já experimentara fortes emoções nas palavras de João Batista, agora vendo e sentindo àquele trabalho, não se conteve. Assim como na semana anterior, o João, o João que gosta de ser forte, buscou mais uma vez um cantinho para verter suas lágrimas. Se no primeiro encontro João conheceu sorrisos neste segundo encontro conheceu vidas e histórias. Histórias de desencontros, de tragédias, de abandono, de perdas, de descaso, de exclusão, de maus tratos, de brigas e mortes, de alcoolismo e drogas, de fé e sobrevivência. Ouviu indignidades que feriram sua alma profundamente, sentiu asco pelas autoridades políticas, revoltou-se, amaldiçoou a má distribuição de renda de nosso país, aterrizou e por fim, rendeu-se frente à dura realidade.
Conversou com vários moradores de rua. Conheceu o Sr. Marcelo, 47, natural de Ribeirão das Neves, sem pai e mãe e sem família. Sem ninguém no mundo. Apenas mencionada uma filha que lhe virara às costas. Conhecendo-o João pensava – “Caramba!Tudo o que este cara fala é “projeção”!Absolutamente tudo que ele afirma é o contrário! É justamente o que talvez gostaria de ter vivido, ou acontecido em sua vida! Infelizmente, a realidade é outra!Quando ele fala que a filha o vê nas ruas e chega e se aproxima dele, conversa e o abraça é infelizmente o contrário! Que pena, que lástima!” Isso impressionou João que correu ao auxílio do irmão João Batista e irmã Tamires que lhe confirmaram a veracidade de suas suposições.
Caminhando lado a lado com Toqueiros conheceu o Sr. Ronaldo Sebastião. Um senhor de 79 anos, maranhense, paraplégico e que vive nas ruas do centro de Belo Horizonte há 35 anos. O cheiro forte de urina incomodou João. Mas, diante da pessoa amável, espiritualizada e inteligente que falava abertamente sobre a vida, viu nele figura amiga e não mais se importou.
Subindo às ruas São Paulo e Rio de Janeiro, encontrou uma cena marcante. Viu um casal de mãos dadas e pés descalços que fora assistido pelos Toqueiros e Leigos. “Ah, se meus olhos fotografassem” – “viajava”  João. A moça da “foto” tinha 36 anos, negra, graciosamente com uma flor nos cabelos, roupas puídas e pés descalços que chamavam a atenção. O rapaz de 19 anos, seu companheiro, trazia consigo a sujeira do mundo, uma barba por fazer, roupas rasgadas e também pés descalços. “Pés sujos e imundos pelos descasos de nossos governantes imundos” – pensava João. Os Toqueiros os alimentaram, fizeram a barba do rapaz e a irmã Tamíres conversou por um longo período com a moça que está grávida de cinco meses. Ao se despedirem, um dos leigos que acompanhavam o grupo tirou sua própria camisa e presenteou o rapaz que depois da barba feita ganhara agora aspectos de civilidade.
Bem ao lado, viu também o leigo Jeverton de Araújo, 24, praticante da Pastoral Jovem de Rua da Igreja Católica cuidando dos ferimentos dos pés de um senhor de uns 65 anos de idade que demonstrava profundo distúrbio psicológico. A cena, o mal cheiro e as chagas e feridas dos pés do assistido chocaram João.
Os curativos dos pés daquele senhor foram trocados. Alimentaram-no. E Jeverton de fala mansa, baixa e amável lhe concedeu uma entrevista. Disse-lhe ser um leigo que há cinco anos, ininterruptamente, todas as semanas, sai de Contagem onde reside para vir todas as quartas e sextas ao centro de Belo Horizonte somente para tratar dos “irmãozinhos” – como gosta de chamá-los. Nas quartas trabalha com a Pastoral Jovem de Rua da Igreja de São José e as sextas segue seu trabalho com os Toqueiros.
Emocionante, chocante, envolvente e elucidativo.  João já não tem palavras, sua mente em momentos fica nublada. Apenas sente que poderia também ajudar. E assim o faz. Toma dá mão de um dos leigos à garrafa de suco e começa a distribuir aos abandonados que iam surgindo. Sente-se bem fazendo aquilo.
Já no final dos trabalhos daquela noite que foi abençoada ele enxerga um catador de papel com seu carrinho. Tenta conversar e não consegue. O dono do carrinho de catar papelão é  mudo. Chegam os outros irmãos e o “mudinho” como é conhecido nas ruas, reconhece os irmãos Toqueiros e Leigos dando-lhes abraços e gesticulando satisfação.
João simpatiza-se com a figura. Estende-lhe a mão e um copo de suco. Uma moça que fazia parte do grupo de Leigos entrega-lhe um sanduíche.. “O mudinho” come, praticamente devora o alimento. Dois minutos depois, despendem-se.
João fica por último, afônico como o deficiente. Sem entreolham. Quando ia se despedir não saiu nenhuma voz.  Despediram-se em silêncio. “Será um adeus ou um até breve”? – se perguntava o estudante.
O que João guardou foi àquele instante. Guardou o olhar agradecido daquele corpo franzino e mal cuidado, sem identidade, sem nome ou sobrenome. O João, o João que gosta de ser forte, voltou para sua casa e ao lembrar-se daquele olhar iluminado jurou a si mesmo, não mais esquecer a doçura e pureza daqueles negros olhos que o miraram.


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– Pastoral de Rua- Avenida Paraná – 02 de Outubro


“Vivi um momento interessante que até então não havia presenciado”.

Por Raphael Jota

Dia 02 de outubro, sexta-feira. Saio ansioso do trabalho em direção a faculdade. Lá, iria encontrar meus amigos para acompanharmos os toqueiros na pastoral de rua. O dia estava com sol, mas justo na hora em que saia começou a chover: “Será que terá pastoral? Será que chegarei a tempo?”, pensei. Minhas mãos doíam, pois estava com mochila e sacolas pesadas. “Será que espero a chuva passar?”, indaguei. Passado um certo tempo, cheguei ao meu destino: a faculdade. Meu eterno amigo e norteador João já estava a minha espera, coloquei as mochilas e sacolas no carro e fomos em direção a minha casa (tinha esquecido umas coisas). Passamos rapidamente por lá e seguimos novamente em direção a faculdade, onde Jesus e Silvana se juntaram a nós. Débora, Augusto e Iara já estavam a nossa espera na Avenida Paraná. Neste momento ainda chovia. Ansiosos pelo que estaria por vir, procuramos incansavelmente um local para estacionar: “Pronto, é aqui mesmo que vou parar o carro”, disse João. Descemos e fomos ao encontro dos nossos outros amigos. Seguimos em direção a avenida Paraná, viramos a Caetés e pronto! Lá estavam eles: os toqueiros e os leigos ajustando os últimos detalhes para a peregrinação de rua. Fomos recebidos com sorriso no rosto e braços abertos, um início muito bom para uma noite promissora. Nos dividimos em dois grupos para podermos alcançar o maior número de necessitados. “Vamos fazer uma roda e fazer uma oração antes de partirmos”, disse irmão Ágape. Nos demos às mãos e rezamos no meio da rua onde a todo o momento passavam pessoas que olhavam um pouco ressabiadas. Fiquei no grupo do irmão Ágape. Descemos em direção a Olegário Maciel onde já encontramos um senhor sentado na porta suja de uma loja, de cabeça baixa, sem nos responder até que irmão Ágape fez uma brincadeira: “O senhor quer um suco ou um soco?”, disse o irmão sorrindo. Neste momento, aquele homem sujo, sozinho e de semblante fechado, sorriu, de uma forma que eu conseguia perceber que ele não sorria há muito tempo… Fomos embora deixando com aquele senhor um copo de suco e um pão com mortadela. Quando chegamos na rua dos Tupis, nos deparamos com outro senhor agora um pouco mais jovem e deficiente físico (não tinha a perna esquerda) sentado no chão. Conversamos com ele um instante: “Quer que eu faça sua barba?”, perguntou irmão Ágape, e com a cabeça, o homem responde que sim. Bruno (um leigo que nos acompanhava) abriu uma bolsa tirando navalha, espuma de barbear. Vivi um momento interessante que até então não havia presenciado.

Seguimos. Viramos a esquerda, direita, seguimos em frente conversando e alimentando os necessitados. Um dos momentos mais interessantes foi quando encontramos o senhor Carlos Acácio, um morador de rua muito extrovertido e educado, que nos contou que era regente e que sua família era dona de uma rede de óticas em Belo Horizonte: “Passa lá na ótica e fala com meu irmão que eu indiquei vocês, ai vocês ganham um óculos de graça, mas não conta que vocês me viram sujo e na rua não ta bom?”, disse Acácio emocionado. Já eram 23:50 quando fomos nos encontrar com o outro grupo para finalizarmos a pastoral. Nos juntamos para comentar algumas coisas que ocorreram naquela noite. Nos despedimos e rezamos mais uma vez, agradecendo por mais um dia de pastoral.


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Pastoral de Rua – Avenida Paraná -02 de Outubro

Eram abordados com muita simpatia, com um jeito de quem tem experiência.Foi realmente emocionante perceber nos olhos dos moradores a satisfação por alguém os escutar”.

Por Jesus Sérgio Moreira

Ao chegar na faculdade já me deparei com parte do meu grupo, aguardando a minha chegada e dos demais. Tínhamos marcado para 20 horas. A chuva caía lá fora. Pensamos que não seria possível fazer nosso trabalho. Apesar disso, não desanimamos e então. Ouvimos nosso colega chamar por nós. A essa altura, alguns já teriam seguido em direção ao nosso ponto de partida.  Rua Paraná, próximo a Rodoviária. É para lá que estamos indo de carro. A chuva ainda caía. Deixamos o veículo no estacionamento da Rodoviária e seguimos a pé. Caminhamos um pouco vimos nossos colegas e um pouco mais a frente, os Franciscanos. Tudo parecia correto apesar de ainda faltar alguns componentes do grupo que alegaram motivo justo para a ausência.Alguns se queixaram da precariedade dos recursos para documentarmos o trabalho.Dispúnhamos apenas de duas máquinas fotográficas.

Depois de nos saudarmos, fizemos uma oração coordenada pelos Franciscanos e nos dividimos em dois grupos para começar o trajeto daquela noite.

Garrafa de suco nas mãos, pães com salame. Ali pertinho mesmo, um morador de rua dormia na calçada. Ofereceram-lhe o lanche. Em seguida, perguntou se ele queria cortar as unhas, fazer a barba e os cabelos. E assim foi com os demais que encontramos, sem deixar de ouvi-los. Alguns eram receptivos, outros nem tanto, mas a todos era oferecida uma prova de carinho. Eram abordados com muita simpatia, com um jeito de quem tem experiência.Foi realmente emocionante perceber nos olhos dos moradores a satisfação por alguém os escutar. Cada gesto de amor dos Franciscanos parecia uma brisa que levemente suaviza o sofrimento destas pessoas.Como sempre, tenho tempo e hora pré-determinados. Conferi o relógio e vi que eram 22h20min, É hora de voltar para casa. Meus amigos ainda ficaram…

“toca de um morador de rua”

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Após a aula de sexta, ele se despediu, abraçou seus amigos e combinou tudo para a manhã seguinte…

Por João Paulo Costa Jr.

Entrou em seu carro, ligou uma música qualquer no rádio, mal  prestou atenção, só pensava no dia seguinte. Acendeu um cigarro, ligou o carro e seguiu pelas ruas da cidade. Parou na casa de sua namorada, subiu rapidinho, cumprimentou os primos dela. Não rendeu muito assunto, seus pensamentos estavam muito além das formalidades de praxe. Ela pergunta: “João, “qué passa”? Você está pensativo demais para o meu gosto”. Ele, balançou a cabeça e disse: “está tudo bem “mi cariño”, vamos logo para minha casa que lhe conto tudo”. No trajeto, explicou a ela que estava ansioso e eufórico. “Amanhã meu bem, é meu primeiro encontro com os “Toqueiros”, vamos visitá-los, já está tudo acertado, já ligamos e agora vamos entrevistá-los – lembra-se que semana passada nós conversávamos sobre isso?” “Que ótimo, me lembro sim – calma, deixa esta ansiedade de lado, vai ser ótimo, vai ver! Tudo vai dar certo” – profetizou sua amada. Chegaram na casa dele, comeram algo que ela preparou, conversaram sobre várias coisas, deitaram no sofá branco preferido e  tentaram assistir a um filme indicado pelo professor dela. Ela adormeceu, ele a acordou; o filme que filme?Amaram-se…

06:30 h – “despertador acorda”! “Ah não, ele pensa, mas já?!” Ela se remexe na cama ao lado dele e diz: “Já está na hora né?!” “Está na hora sim” – sonolento, balbucia  João.
Acordou com alguma dificuldade, doeu-lhe um pouco a cabeça, deu um beijo carinhoso nela, abraçou-a fortemente, lhe disse coisas inteligíveis e correu para o banheiro. Do portátil do banheiro ligou uma música “no talo”, porque queria acordar os vizinhos! “Acorda mundooooo”, ele gritava – da porta do “box “, ela o olhou docemente e sorriu – sorriso que ele não conseguiu desvendar.
Tomaram um rápido café, desses preparados em dez minutos por aqueles que estão muito atrasados para um compromisso. Comeram um pãozinho, saíram correndo, entraram no carro e seguiram para seus destinos. Ela, para sua casa dormir mais um pouco e depois estudar, ele “no encalço da matéria”.
Chegando à porta da UNA, todos já o esperavam, ficou constrangido pelo atraso. Acendeu outro cigarro.
Reuniram-se então Raphael Jota, Débora Gomes, Iara Fonseca, Ana Paula de Paiva e João. Tomaram café juntos para recobrarem os ânimos e controlar as ansiedades. João pensava: “é  a primeira vez que os vejo de dia! À noite, quando encontro-os na faculdade já são pessoas excepcionais, de dia então, “ensolarados”, devem ser ainda melhores!” Já um pouco atrasados, seguiram rumo à “Toca de Assis”. João dirigia com preguiça, mas, profundamente tocado pelos sorrisos gentis em que fora recebido.
E vira à direita, segue pela esquerda, retorna novamente à direita, passa cruzamento, fura o sinal, pega viaduto, passa rotatória. Ele se estressa, mexe no rádio tentando colocar a música certa para encontrar o caminho certo. Pede informação novamente, erra, vira à direita, erra. À direita de novo, dobra  a esquina, segue pelo cruzamento, pede informação, vira à direita quebra à esquerda e enfim, quase descrente e sem forças, pára na porta da Toca.

Ao estacionar o carro, descem todos. João fica lá dentro por mais alguns instantes, “”um micro-tempo” para fazer uma “micro-prece””– ele pensa.  “Chegamos, obrigado meu Deus – agora é contigo e comigo! Vamos lá conhecer estas pessoas”. Ele sobe a rampinha da Toca, seus amigos já estão cumprimentando o Toqueiro que está na porta da casa. Ele olha tudo à sua volta e sente-se feliz!

Dono de um sorriso largo e trajando suas vestes características e habituais chega o Irmão Ágape que recebe João com um abraço fraternal e pergunta-lhe: “O que é mais fácil? Amar Jesus ou conhecer Jesus?” João não tem as respostas…meio envergonhado, olha para o irmão Toqueiro esperando a resposta que fluiu em mais outro sorriso: “amar é mais fácil, conhecer, ah conhecer…conhecer a gente tenta” –  mais gargalhadas. O João, o João que gosta de ser forte, fica comovido. Chegam os outros Toqueiros. Irmãos João Batista, Patrus, Ikitos, Petrus, Simão e Jeremias. Mais apresentações, mais abraços, mais sorrisos, mais amor, mais vocação, mais desprendimento, mais compaixão, mais informações, mais casos, mais felicidade.

Entre sorrisos afetuosos, João conhece o irmão João Batista, que concedeu-lhe uma entrevista comovente. O toqueiro João  Batista com os olhos marejados disse-lhe de sua vocação e do prazer que sente ao ajudar as pessoas. O nosso João, o João de nossa história, conheceu também o irmão Ikitos, nascido no Rio Grande do Norte, cozinheiro da Toca e fã de Roberto Carlos. João brincava: ” ah, agora eu conheci um toqueiro romântico”…

Cada vez mais a vontade João caminhava no jardim em frente à Toca quando começou a incomodar o sol escaldante e olhou para o lado quando viu um garoto (parecia um garoto mesmo) que estava naquele sol com uma pá enchendo um carrinho de areia e fazendo massa de cimento.  O “garoto’ veio suado cumprimentar João. Marcus, 28, é um ex-toqueiro. Confessou a João que esteve prestes a consagra-se toqueiro, porém, a saudade da família e as aspirações de formar-se em enfermagem fez com que mudasse o rumo de suas escolhas. João impressionou-se com aquelas informações, pois, mesmo Marcus não sendo mais da fraternidade continuava  ali, todos os Sábados a ajudar nas tarefas da Toca seja como pedreiro ou seja colocando em prática o que aprende na faculdade de enfermagem que cursa atualmente.

Tantas informações. João observava tudo atônito e pensava: “putz…que vida doida, que povo doido, tenho muito a aprender com estes caras”…

E eram muitos sorrisos. Todos, estampados nos semblantes de cada toqueiro e das pessoas que são acolhidas na Toca. As entrevistas que mais pareciam ser “papos” entre velhos amigos, aconteceram da melhor maneira possível. Sempre, com muito respeito e com um “quê” fraternal e paternal. Entre uma manhã  e tarde, as horas não passaram para João e seus amigos. Eles se deleitaram nas companhias agradáveis e em prosas descontraídas dos jovens que estavam ali trabalhando arduamente. Eles cuidam de aproximadamente vinte homens idosos, doentes, abandonados pelas famílias e alguns, em estados de latente distúrbio psicológico. Não viu ninguém reclamar de nada, não sentiu ninguém apressado, estressado, não viu ninguém triste…

Passadas as primeiras horas, João sentiu a necessidade de não buscar conhecê-los porque estava fazendo um trabalho para a faculdade, mas, porque talvez sentiu naquelas pessoas entrevistadas algo pleno, algo que ainda desconhecia e vale a pena ser estimado. João tirou fotos, gravou, filmou, entrevistou, sorriu, abraçou, conversou, almoçou, pensou, sentiu e chorou. Foi lá atrás da casa, sozinho para chorar. Fumou outro cigarro, pensou em tudo que os toqueiros fazem por aquelas pessoas necessitadas e emocionou-se mais uma vez. João não olhou para um doente, viu nele figura amiga. João não se preocupou com pautas ou em perguntar tudo que lhe ocorria dando vazão à sua curiosidade, quis apenas ser amigo. O João, o João que gosta de ser forte, não vai se esquecer deste dia em que conheceu os jovens da “Toca de Assis” e sentiu sua alma vibrar.

Finda-se o dia, todos regressam. João chega em sua casa, agradece a Deus a oportunidade deste trabalho e pensa estar fazendo a coisa certa – “Sim, como estudante de jornalismo, tenho a obrigação  moral de passar num relato fiel esta experiência que vivenciei; pode não interessar a muitos, mas, se alguém ler este diário de bordo, vai saber o quanto me fez bem conhecer novos valores, novas  vidas, novas pessoas e sobretudo, novas possibilidades”.

(João Paulo e Irmão Ágape)

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“Nossa tá escuro ainda, será que meu relógio está certo? Despertou no horário exato?”, estas foram algumas perguntas que me fiz no momento em que acordei no dia 26/09 às 05h30min da manhã. Assim começa meu dia.

Por Raphael J.

Fui o primeiro a chegar à porta da faculdade. Antes, dei uma voltinha na praça da liberdade. “Acho que vou dar outra volta”, pensei. Às 07h05min chega a Ana “rindo” e logo pega de dentro de sua mochila uma maçã, dizendo  ser o seu café da manhã. Conversamos um pouco e logo chega Débora (rindo). Nos abraçamos e nos perguntamos como chegaríamos à toca, já eram 07h15min quando a Iara chegou (rindo) e só faltava o João. A cada carro que passava na rua imaginávamos ser o dele. “Pronto ele chegou!”, comentamos ( já ia me esquecendo: ele também chegou rindo). “Meu Deus será que também cheguei rindo?” pensei rapidamente. Descemos para a padaria próxima a faculdade para tomar café. Percebi o quanto aquele café era importante para cada um: “É a primeira vez que vejo vocês de dia” comentou João, e era verdade: foi a primeira vez que nos vimos na parte da manhã, talvez esteja aí o segredo de todos chegarem rindo (mesmo sem perceber).

Entramos no carro, fomos pela região do bairro Padre Eustáquio, Alípio de Melo de maneira que  chegaríamos mais rápido na Toca da Raposa 1 e poderíamos encontrar mais fácil o caminho para a Toca de Assis. Quando chegamos na Toca da Raposa, paramos o carro para perguntar onde seria mais fácil o caminho para a Toca 2 e de lá para a Toca de Assis. Ficamos cerca de uma hora rodando o bairro Enseada das Garças e sempre que perguntávamos para algum morador do bairro como chegar, informavam-nos para virar a direita, direita, esquerda, direita e esquerda de novo (era sempre a mesma coisa). E por incrível que pareça, um rapaz que estava com uma criança no colo, esperando ônibus (parecia que não era do bairro) nos deu a informação correta. Pronto: eram 09 horas em ponto e chegamos na Toca de Assis. Comemoramos dentro do carro mesmo.

Fomos recepcionados pelo irmão Ágape que nos tratou muito bem do início ao fim. Aliás, todos os toqueiros foram muito gentis, educados, receptivos, de uma forma que não imaginávamos. Irmão Ágape nos apresentou a casa, os irmãos acolhidos e cada toqueiro que nela estava. Tiramos fotos, fizemos vídeos, fomos convidados a almoçar com eles e a princípio não queríamos, mas percebemos que as respostas negativas seriam uma grande desfeita a todos da casa.

Foi um dia maravilhoso, aprendi muito e sai dali com o espírito renovado, na certeza de que existem pessoas que só pensam no bem do próximo. Aquela visita terminou com muitos sorrisos, assim como começou o dia.

 
 
 
 

 
 
 
(Raphael J. e Jotinha)

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Sábado, 26 de Setembro

Por Débora Tomaz
-Primeira visita

05:30 da manhã e eu já estava de pé. Cheguei na porta da UNA Liberdade às 7:07 da manhã. Ana e Jota já estavam lá. 7:15 chegou Iara. 7:25 João. Tomamos café e rodamos mais de uma hora procurando a Rua dos Flamingos, número 96, Bairro Enseada das Garças. Pelo caminho risos, ansiedade, expectativa, buzina (ah João! rs).
A chegada por volta das 09:00 horas da manhã nos encheu de alegria e mais expectativa.Fomos recebidos de uma maneira que eu não esperava. Uma simpatia, um gosto por nos ter ali. Me senti em casa.

Irmão Agape nos apresentou a Toca. Para minha surpresa, uma casa em que moram também “irmãos” acolhidos pelos Toqueiros, alguns encontrados nas ruas, outros levados por vizinhos, ambos com histórias que nos renderam mais que uma manhã.O medo de não saber o que dizer ou perguntar foi preenchido pela paz daquele lugar.

Conversamos, entendi, aprendi.Foi como se um mundo novo se abrisse pra mim. Um mundo que imaginei ser bem diferente do que vi.
12:12 almoço. Descontraído, alegre, me senti em casa mais uma vez.Uma oração, todos sentados a mesa.
A conversa continuou por todo o almoço. Irmão Patrus conhece minha cidade e olha só! Viajariam pra lá as 15 horas.
“Divas no Divã”, veja só! Eles também assistem TV e comédia!
Vivi um dos melhores dias da minha vida.Entre risos e jogos de dominó (não é que Ana ganhou mesmo?) consegui me encontrar. Aprendendo com o outro uma realidade longe da minha, mas talvez mais rica, mais bonita, mais intensa. E eu consegui sentir.
O que mais me marcou?
O amor, a alegria, o sorriso no rosto dos 6 Toqueiros que conheci. O cuidado, a preocupação, o carinho com todos nós.
Cada um vivendo sua renúncia, cada um seguindo seu chamado, sua vocação.


“Sentir saudade é uma forma de amar.
Só sente saudade quem ama então a saudade é também um sentimento bom, assim como o amor.”

Irmão Petrus, 33 anos, Toqueiro a 6 anos. Me ensinando lições…

 
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Belo Horizonte, 26 de Setembro de 2009  –  Toca de Assis –
Por Ana Paula de Paiva

01:05 telefone toca, ana anota o endereço, como anotar eu estava dormindo. 05:35 telefone toca, ana acorda, anota o endereço. E o dia começa.

A responsabilidade chama. Sai de casa sem café e com sono. Olha para as pessoas na rua e reparo que todas estão com sono, assim como eu. (…) o combinado foi às 07h15 na UNA. Encontro Raphael, que por sinal trazia um pouco de sono. Aos poucos foi chegando os integrantes: – Débora, Iara cadê o João?

Sim! O João chegou e fomos todos tomar um café para fortalecer os ânimos.  Após o cafezinho saímos em direção a Toca de Assis, localizada na Rua dos Flamingos, 96, Enseada das Garças.

Aparentemente quando temos um endereço ou um ponto de referência tudo flui. Bom pelo menos era o que pensávamos. Pergunta aqui, grita ali, pergunta novamente. O engraçado é: esquerda, esquerda, pra esquerda… direita, direita depois da rotatória, tem ideia de quantas rotatórias tem na Pampulha?  Entravamos e saiamos nas mesmas ruas, andávamos em círculos, algumas pessoas tentavam ajudar. Eis que encontramos um senhor arrumando o Jardim e incrivelmente ele trazia consigo a logo da nossa faculdade na camisa. Seria isso um bom sinal?

Mais uma vez. Entra na esquerda e vira a direita e lá em cima perto da toca da raposa, pede informação que alguém vai explicar melhor. Ok! Gastamos algumas. Mas na esquina encontramos a placa “Rua dos Flamingos”. Chegamos!

 – CASA ALIANÇA SÃO JOSÉ –

“A Toca nasceu na rua. Hoje é uma rua murada”.
Primeira impressão: o que tem atrás deste portão?
Deparei-me com um mundo que acreditava conhecer, julgava suas formas e seus costumes. Não sabia qual seria o assunto com aqueles moradores.

O portão abriu e fomos recebidos com um sorriso, que quebrou todas as barreiras. Irmão Ágape diz: “O que é mais fácil: Amar Jesus ou conhecer Jesus?” Não respondi. E a resposta foi dita: “Amar Jesus é mais fácil, conhecer ele a gente tenta”.

Neste momento descubro o muito que tenho que aprender (…)
Na casa moram seis religiosos. Eles acolhem cerca de 20 homens.  Cada um com sua particularidade.

“Adoração, acolhimento aos pobres e a evangelização dos mesmos”, são estas as regras a serem seguidas.
Nosso trabalho foi acontecendo de forma descontraída, em meio de conversas, brincadeiras descobrimos um pouco de cada morador, até do pequeno cachorrinho que às vezes roubava a cena.
Cada morador guarda em si os segredos, aqueles que estamos ali para desvendar, conhecer e compreender. Aprendi a observar mais, ouvir mais e sorrir por estar de coração tranquilo. Ensinaram-me a jogar dominó e me fizeram descobrir que sou boa em algum jogo. Ofereceram-me uma oração e logo um banquete, cantaram mesmo com palavras emboladas, me apelidaram e devolveram a paz de espirito que já havia esquecido.

Sabe quando um dia de trabalho vale a pena?

 

Uma conversa:

Olá como é o nome do senhor? Antonio.
Antonio de que? Não sei.
Qual a idade do Senhor? 72 anos.
Antonio, como você chegou em Belo Horizonte?
Eu vim andando ( … entendi)
Como o Senhor veio parar na toca?
Eu vim de carona (… agora eu entendi)
Ali perto da árvore, o senhor me olhava,
sorria às vezes e quando me aproximei,
ele continuou calado ali na árvore.
Antonio, 72,tem o sorriso de uma criança feliz.

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4 responses to “Diário de Bordo

  1. Cristina

    Olá Pessoal,
    adorei o trabalho de vocês, ficou muito bem feito.
    Vocês precisam para melhorar este trabalho procurar saber um pouco mais da história da Toca.
    A mais ou menos um ano atrás, encontravamos realmente a alegria franciscana, o amor fraterno e a doação vividas 24 horas, era uma felicidade indescritível no mundo de hoje. Procure algum leigo atuante desta época para te contar. Hoje já não temos mais a Toca vivendo o carisma original.
    Hoje se preocupam com papéis, burocracias e não mais com irmãos de ruas (muitos ex-acolhidos moram na ruas atualmente). Cheguei a participar de algumas missas deles e o Tocão foram experiências que deixaram marcas profundas no coração. Resolvi ai ir a Ordenação em Campinas, que tristeza, não imaginaria que a Toca tinha tomado tal rumo, que decepção… vi ali nitidamente que o carisma não é mais vivido mesmo.
    Uma leiga que ama a Toca

  2. o mais difícil de tudo isso é conseguir se envolver e, mais difícil ainda é voltar para a nossa realidade e refletir sobre isso. Voces conseguiram mostrar o que são so Toqueiros melhor que ninguem. Parabens pelo excelente trabalho.

  3. fernando vieira dias

    Gostaria de ajudã-los de alguma maneira. Moro em BH, estou aqui hã 1 ano e 4 meses, desempregado.
    O que poderia fazer para ajudã-los: Toco violao, canto, amo Deus e venero S”ao Francisco de Assis – ~e meu mentor hã anos.

  4. scj

    muitas pessoa tem espalhados boatos sobre a toca de assis …
    nos leigos fikamos sem sabem em quem acreditar coisas orriveis tem sido ditas e a TA nao tem se manifestado … verdade ou mentira ?
    testemunho de um ex toceiro tem abalado a humilde imagem da TA , presisamos de respostas .
    adimiramos muito a toca e queremos continuar a adimirar…

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