Neo Entrevista

A Fraternidade Toca de Assis conta com inúmeros leigos que  auxiliam no acolhimento e serviço aos pobres e moradores de rua. Nelma Maria Cristina Ferreira é uma das leigas que ajuda nas pastorais de rua. Em entrevista, nos conta um pouco sobre suas experiências.

Neo Entrevista: Há quanto tempo e como teve início o seu trabalho na pastoral de rua da Toca de Assis?
Nelma: Há mais ou menos 4 anos. Eu comecei na pastoral de rua a convite de uns irmão que me chamaram para ajudar no Natal do Senhor.

Neo Entrevista: Existe uma preparação para as pessoas que se interessam ou desejam iniciar este trabalho?
Nelma: Não existe uma preparação para participar. Mas é necessário conhecer o trabalho e tem uma norma, onde ninguém deve se aproximar do irmão de rua sozinho, deve se ter esse cuidado e também o discernimento.

Neo Entrevista: Quais os problemas que mais frequentemente vocês encontram neste tipo de acolhimento?
Nelma: Normalmente nós somos muito bem recebidos, eles não nos trazem muitos problemas, há aqueles irmãos que não querem conversar e nós respeitamos isso.

Neo Entrevista:
Esta gratuidade e despojamento que vocês vivenciam diariamente nas ruas, já foi criticada e não é aceita por muitos. Porque você acha que algumas pessoas não aceitam?
Nelma: Penso que é porque a maioria realmente não conhece de fato este trabalho, existem pessoas que não compreendem e aquelas que tem medo dos irmãos que estão nas ruas.

Neo Entrevista:
Indo ao encontro dos pobres, dos excluídos, dos moradores de rua, o que mais lhe estimula e motiva a continuar?
Nelma: É um trabalho muito bonito, mas também é árduo, levar o alimento espiritual que muitas vezes é o que eles mais precisam, essa doação expontânea, e falar de Jesus Cristo para mim é muito importante. Ainda,é preciso estarmos constantemente vivendo essa comunhão com Deus, sem a qual esse trabalho não teria sentido.

Entrevista concedida a Silvana Ferreira Lemes

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Entrevista

Outras Questões

Voltando ao meu mundo

Por Bruno Moreira Pereira

Ao longo das pesquisas e entrevistas, tivemos muitas experiências acompanhando os toqueiros em seus trabalhos. Vivenciamos muitas coisas e tentamos simplesmente pensar como eles e entender o porquê de abdicar de tantas coisas para se sentir mais perto de Jesus, numa busca de sentir melhor físico e espiritualmente falando. No trabalho que realizamos, por nossa doação, comprometimento e curiosidades, acho que muitas vezes nos esquecemos que não somos toqueiros. Nosso modo de ver as coisas é diferente, podemos comprar coisas para nos sentirmos melhores sim e podemos como devemos ter relações com o sexo oposto, pois é importante para a nossa formação como pessoas. Depois de vivenciarmos o universo dos toqueiros é hora de voltarmos para o nosso mundo e pensar que se você fizer todos os votos que eles fazem para viver uma vida consagrada, provavelmente a sua vida será chata e cheia de depressões que você não poderia controlar. A nossa iniciativa de querer entender o que são os toqueiros não pode ser confundida como uma campanha para que as pessoas façam todos os votos e virem toqueiros. Não temos esta pretensão e não é nosso objetivo e temos que observar que existem prós e contras para se viver uma vida religiosa. Tive a oportunidade de ir ao encontro dos toqueiros nas realizações da pastoral de rua por duas vezes. (trabalho em que toqueiros e leigos saem pelas ruas ajudando os moradores de rua ). Admirei o trabalho, mas realmente nunca iria numa sexta-feira ajudar moradores de rua ao invés de encontrar com meus amigos ou ir a um show. É louvável, mas sair pela rua ajudando, não que isso não seja certo, mas não é meu ideal de vida, pois não pretendo ser um toqueiro.
Para concluir, queria dizer que o trabalho deles é bonito e ajuda muitas pessoas, só que não aconselho ninguém que não tenha um perfil religioso a seguir este caminho. Será que vale a pena radicalizar e acabar com tudo aquilo de bom desta vida para cultuar um Deus e se sentir mais perto dele?

1 Comentário

Filed under Opinião

Outras Questões

Qual a identidade?

Por João Paulo Costa Jr. e Raphael Jota

Modernas Transformações

A identidade está sempre em formação sendo criada ao longo dos anos num contínuo processo de mudança. Na modernidade e especialmente no âmbito religioso, não é diferente. E hoje talvez os processos de mudanças dos indivíduos sejam ainda mais acentuados, na medida em que é assimilado um grande volume de informações culturais e de novas tendências. Estas tendências num mundo extremamente individualista podem gerar “crises de identidade” e necessidades de alguns em não viver na materialidade egóica dos dias modernos.

Afirmando identidades

Os indivíduos, para se afirmarem como tal, buscam viver uma vida pautada na diferença. Sob este aspecto, a sensibilidade dos toqueiros recupera velhos elementos tradicionais e cria novas formas estéticas de expressões, que reafirmam a necessidade de apaziguar conflitos interiores do indivíduo. E pelo que verificamos, o processo de afirmação da identidade dos toqueiros subentende novas escolhas de perspectivas de vida, ideologias, valores, costumes e modo de viver pelos exemplos cristãos.

É fácil observar grupos que se juntam por afinidades para criar uma identidade coletiva e ao final uma identidade singular, una e personalíssima. A exemplo dos toqueiros, os punks, os emos, os surfistas, osskin heads, as juventudes evangélicas, os skatistas, os metaleiros, os clubers, os agroboys, os regueiros,entre muitos outros grupos, todos se juntam por afinidades para se afirmarem na construção e na desconstrução de suas identidades pautadas por valores que lhes são peculiares. São modismos, cabelos diferentes, roupas e indumentárias incomuns para chocar, afirmar ou reafirmar a fragmentação de velhos e novos valores de nossa sociedade que estão sendo constantemente absorvidos, reinventados ou sublimados.

Após todo o processo de postulação e consagração, os filhos e filhas da pobreza do santíssimo sacramento deixam seus nomes civis para trás, passando a assinar um nome religioso e personificar nele próprio os ideais da vocação que sentiram pulsar em seus corações e espíritos. Em cima deste mesmo nome religioso encontram e afirmam suas identidades na medida em que (ao nosso ver), preenchem lacunas de uma outra identidade que existia anteriormente.

A ruptura e desconstrução

Em nossa visão de leigos, os irmãos e irmãs não só deixam suas famílias, carreiras profissionais e amores para trás. Numa ruptura visceral, assumem a postura de uma vida consagrada a favor do próximo, descontruindo o que viveram outrora e embasados nos votos de pobreza, castidade e obediência controem uma identidade “reformada” com um apelo racional fortíssimo de mudança de postura ao assumirem uma concepção de identidade diversa do que a sociedade atual nos cobra viver.

Assim, indo ao contrário da maioria dos jovens, os toqueiros reinventam valores antigos de linguagens para se afirmarem na atualidade com novas formas de relacionamentos com a materialidade, com o sexo e o sagrado, sempre pelo viés da emoção e fé, rompendo o pré-estabelecido.

Os ícones de referência

Para se afirmarem, ao nosso ver, os toqueiros e irmãs da pobreza vêem seus sacrifícios como o arcabouço de suas identidades nutridas por uma certa veneração ao Pe. Roberto Lettieri, visto como um santo vivo. Estes jovens cultuam São Francisco de Assis e Lettieri como exemplos. Mas será que os outros grupos também não fazem o mesmo? À sua maneira, lógico, mas também cultuam ídolos do rock, da música, da política, da arte, da televisão, do ramo dos negócios etc, sempre buscando modelos de referência. A diferença entre os toqueiros e outro grupo qualquer talvez seja somente o apelo à religiosidade. Mas, todos buscam referências comportamentais de acordo com o que pensam e almejam da vida.

O crescimento da Toca

Após quase quinze anos de vida, a Toca de Assis no Brasil encontra-se em franco crescimento. Acreditamos que isto se deve ao fato de que é uma fraternidade que inspira aos jovens seguidores, novas e velhas expressões de comportamento com modelos ideológicos reinventados e adaptados para os dias atuais. Talvez consigam passar respostas concretas para as buscas de referências destes jovens, que se afinam com o ideal cristão e com um modelo comportamental, a partir do qual contestam também o mundo plural em que vivemos.

A pergunta é:

É válido contestar a personalidade que os toqueiros tinham antes de se consagrarem na Fraternidade?

Explicamos: antes de se consagrarem eles eram Rodrigos, Natálias, Jefersons e Jéssicas. Após a consagração, eles assumem outro nome: um nome religioso. E aí deixamos o questionamento: esta postura de materializar outro nome e novas posturas constrói ou desconstrói a identidade primeira que eles possuíam? E a bagagem que traziam antes ainda os influencia? Quem teve experiências em ter bens materiais, carreiras profissionais e experiências sexuais consegue se desvencilhar totalmente do mundo anterior, em face dos votos de castidade, pobreza e obediência?

Essas são questões que essa primeira aproximação não é suficiente para respondê-las, mas esperamos que como estudantes de jornalismo possamos sempre fomentar e levantar discussões em torno da sociedade em que vivemos.


Fonte de pesquisa: HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed.Rio de Janeiro: Editora DP&A, 2006.

Deixe um comentário

Filed under Opinião

Neo Entrevista

Warley Rocha, um jovem simpatizante da Toca de Assis, nos conta em entrevista suas experiências vividas na Fraternidade. Natural de Vitória da Conquista, Bahia, tem 20 anos, e hoje se encontra desempregado.

Warley e Ir. Maria de Fátima

Entrevista concedida a João Paulo Costa Jr. e Raphael Jota

Neo Entrevista: Qual sua opinião sobre a toca de Assis?
Warley:
A Toca é obra de Deus, semeada no coração do Pe. Roberto. Ela hoje é a manifestação da pobreza. Por excelência, nos ensina a amar a Igreja Católica e a amar os irmãos de rua como se fosse o próprio Jesus.

Neo Entrevista: Você era toqueiro?
Warley: Fui apenas vocacionado externo.

Neo Entrevista: O que é ser “vocacionado externo”?
Warley: É fazer acompanhamento vocacional por cartas. Depois participamos de dois encontros, um regional e o outro nacional. E vocacionado interno é fazer uma experiência de seis meses ou um ano dentro da Toca.

Neo Entrevista: Por que não chegou a entrar para a Toca?
Warley: Eu senti o chamado à vida sacerdotal e a Toca é um instituto não-clerical. Ou seja, os religiosos da Toca não podem receber o Sacramento da Ordem, com exceção do Padre Rogério. Essa decisão foi colocada no coração do fundador como regra de vida do carisma. Mas isso não impede que um Sacerdote que se sinta chamado a ser um Filho da Pobreza se torne um Toqueiro.

Neo Entrevista: E o que você pretende fazer?Seguir a diaconato?Será padre?
Warley: Eu me sinto chamado a me consagrar como celibatário, não sei exatamente se como Sacerdote ou apenas religioso. Tudo isso deposito nas mãos do Senhor. Pois é a Ele que pertence a minha vida. Que não se faça o meu querer, mais sim a Santissima Vontade de Nosso Senhor.

Neo Entrevista: Você já ouviu falar algo dentro da toca que deixa alguns toqueiros desiludidos?Você tem conhecimento se existem conflitos de obediência dentro da Fraternidade?
Warley: Alguns não concordaram com a quarta hora de adoração que Pe Roberto implantou dentro da Toca, outros acham que o Pe Roberto é melhor para a liturgia. Mas nada que interfira na consagração deles. Pois o que sai do coração do Pastor preenche o coração das ovelhas.

Neo Entrevista: Vários blogs e ex-integrantes da Toca de Assis nos informaram que às vezes acontecem várias festas com vinhos e cervejas dentro da Toca de Assis. O que um vocacionado externo teria a nos dizer sobre esse assunto?
Warley: Cada um fala o que quer, tenho certeza que você ouviu isso na “MONFORT”. O Sr. Fideli se diz católico, mas foi proibido de entrar em eventos de algumas dioceses, ele não fala pela igreja. Esses tipos de festas que foram mencionadas pela Monfort não passam de mentiras e injúrias contra a Toca de Assis, pois como conservador, ele não aceita esses novos institutos e movimentos que nasceram após o Concilio Vaticano II.

Neo Entrevista: Warley, você considera a Monfort uma ameaça a credibilidade da Toca?
Warley: Ameaça não. Mas acaba prejudicando a Fraternidade e a Igreja Católica, pois ela propaga mentiras não somente sobre a Toca, como de outros Institutos e Movimentos.

Neo Entrevista: O que você achou da ordenação do Pe Rogério para a Toca?
Warley: Uma graça, uma benção! Ele, como co-fundador, é o primeiro Sacerdote gerado no Carisma da Fraternidade. Auxiliará muito o Pe Roberto na direção espiritual da Toca.

Neo Entrevista: Entrevistamos alguns toqueiros que em off nos disseram que não concordam muito com a ordenação do Padre Rogério. Isso ocorre pelo fato de que o Pe Rogério até então “irmão Rafael”, fez voto de pobreza, e um padre tem privilégios como carros, uma verba  e outras coisas que enquanto toqueiro é necessário abdicar. Qual sua visão (alguém que participou ativamente) sobre este comentário dos toqueiros que não quiseram se identificar ?
Warley: Isso não vai interferir em nada. Mesmo ele tendo sido formado pela diocese, ele é consagrado de uma fraternidade, e como consagrado tem seus deveres, e entre estes está o voto da pobreza. Que todos saibam que o a ordenação do Padre Rogério foi aceita pelo Padre Roberto.

Neo Entrevista: Você já conheceu algum toqueiro que transgrediu os votos de castidade?
Warley: Sim. Afinal de contas trata-se de pessoas, e que carregam em si os desejos carnais e acabam cometendo certos pecados. Mas Jesus concedeu a Igreja a graça do Sacramento da Reconciliação (confissão), e que concede a estas pessoas a graça de unirem-se novamente a Deus, e terem uma nova chance. Eles NÃO são anjos e nem santos! Ao contrario: desejam a santidade, e santidade não é ausência de pecado e sim luta constante e reconhecimento que se é HUMANO. Estão sujeitos aos erros.

Neo Entrevista: O que você acha da discografia da Toca? Você curte as músicas da Toca? Qual música você gosta mais?
Warley:
A Toca traz em sua essência a beleza, e entre elas estão as suas músicas. Músicas que me ajudam numa experiência mais profunda do Amor de Deus por mim. Por isso a minha gratidão pelo ministério de música da Toca. São muitas músicas que eu gosto, entre elas está “Coração em Comunhão” e “Fiel Pelicano”.

Neo Entrevista: Você acha possível que no ambiente de recolhimento em que os toqueiros se encontram dentro das Casas Fraternas, pode haver regalias e privilégios para alguns e mais trabalho e mais obrigações para outros?
Warley:
Não. Não acho possivel isso, eles possuem o mesmo trabalho e a mesma espiritualidade. Pra ser verdadeiramente toqueiro precisa viver a RADICALIDADE do Carisma. E o Carisma exige DOAÇÃO!

Neo Entrevista: Você tem conhecimento de algum caso de homossexualismo entre os filhos e filhas da Toca?
Warley:
Sim. É uma realidade, não há como negar essa verdade. O problema está se este vier a viver a prática homosexual, isso é inadimissivel. Não se trata de preconceito e sim de fidelidade ao Evangelho. Pois todo homosexual deve ser amado e respeitado, e é convidado a viver a castidade, como todo e bom católico.

Neo Entrevista: Na sua visão quais são as principais deficiências da Fraternidade Aliança Toca de Assis?
Warley:
Quando se trata de Carisma eu me calo. O Carisma é Dom de Deus. O problema não está no Carisma, pois este é santo, o problema está no “vaso de argila” que o carrega. Por causa da sua frágil humanidade.

Neo Entrevista: Como você vê o futuro da Toca de Assis?
Warley:
O futuro pertence a Deus. Não se trata do nosso querer, e sim do querer de Deus. A Toca é Obra Dele. Que Ele faça o que quiser. A Toca nasceu do Altar de Deus e dos pobres e deve VIVER para o Altar. Mas desejo profunda que o Carisma não se perca, que se perpetue e mostre para o mundo que Deus está no pobre e é SACRAMENTO.


Neo Entrevista: Como um simpatizante da Toca você gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens que desejam ingressar na Fraternidade? Que conselhos você daria para eles?

Warley:
Amados irmãos em Cristo Jesus, que o
Altar seja antes de tudo a Razão Única do vosso viver, que os pobres sejam os seus prediletos.

Se vocês se sentem vocacionados a este belo Carisma não TEMAM! Respondam a este apelo do Bom Deus. Permitam que os vossos corações seja CONSUMIDOS no Altar. Sejam verdadeiramente ADORADORES, é isso que o Pai procura: adoradores em espirito e verdade.

Sejam Jovens DESCOLADOS!

Acreditem que uma nova primavera de santos surge na Igreja! Que suas vidas PACTUEM o mundo e PROVEM que é POSSIVEL viver da ETERNIDADE!

Ouçam o que o nosso Grande Deus e Senhor diz: “quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la. (Mc 8, 34-35).

Pois “a pregação da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que são salvos, para nós, ela é força de Deus. Pois está escrito: ‘Destruirei a sabedoria dos sábios e confundirei a inteligência dos inteligentes’. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o disputador desta era? Aliás, Deus não reduziu a loucura a sabedoria deste mundo? De fato, pela sabedoria de Deus, o mundo não foi capaz de reconhecer a Deus através da sabedoria, mas, pela loucura da pregação, Deus quis salvar os que crêem.” (I Cor 1, 18 – 21)

Obs.(Por favor, deixe as palavras em letra maiúscula, sublinhadas e coloridas, pois isso expressa o que eu  verdadeiramente sinto em relação a elas.)

Deixe um comentário

Filed under Depoimento, Entrevista

Transitoriedade da Toca de Assis

Depoimento  de uma ex-toqueira


Algumas pessoas entram para a Toca e permanecem. Outras terminam retornando ao lar, como é o caso de Ulieme Oliveira Cardoso, 23 anos, natural de Campinas/SP.

Ela entrou para a Toca em junho de 2002 e saiu em novembro de 2006. Como tudo começou, as impressões, as experiências, as reações da família e as emoções foram relatadas aqui. “Eu entrei pra Toca em 23 de junho de 2002 com 15 anos. Entrei, pois me encantei com o carisma. Gosto de cuidar e fazer o bem para as pessoas e sempre quis de alguma forma tentar mudar o mundo. Quando ouvi falar de São Francisco de Assis, me encantei pela história de vida dele. Era justamente o que eu queria fazer e tinha como filosofia esta frase: ‘Se queres mudar o mundo comece a partir da sua mudança’, então quis entrar pra toca, pois de todos os conventos franciscanos, a toca era a que mais se destacava com aquilo que eu queria viver, uma vida despojada voltada para o cuidado com o próximo, que mais necessita.

Antes de entrar, senti muito forte o chamado de Deus através da Bíblia na passagem de Ísaias 61. Foi ai que senti que Deus queria que eu o servisse.
Meus pais odiaram a idéia, mas nunca me impediram. Ficavam falando que não precisava tanto e que eu poderia servir a Deus no meu círculo de amizades e no meu cotidiano. Minha mãe falava toda vez no telefone para eu voltar. Já meu pai não falava nada, pois ele tinha muito medo que eu ficasse aqui fora e me perdesse no mundo.
Morei em vários lugares devido à vida missionária que tínhamos. A primeira casa foi a Chácara Santa Clara, em Campinas, onde fiquei por seis meses. Depois fui para o Rio de Janeiro na casa de Santa Tereza, para a casa Leprosário Curupaiti em Jacarepaguá também no Rio, para São Paulo na casa de pastoral de rua “Bom Samaritano”, depois Vila de Assis, Cotia, Vinhedo e por último em Santos.


De todos os lugares que passei, uma das casas que mais me chamaram atenção foi a Leprosário Curupaiti (RJ) pela situação dos moradores, pelo abandono que eles tinham pela sociedade. Não tinha acolhidos: nossa missão era curar nos corações dos leprosos as feridas da alma, e  cada dia nos ensinava uma coisa diferente e tínhamos força para viver. Chorava muito lá, mas sabia que cada lágrima era um novo aprendizado.
Teve também a casa Bom Samaritano (SP). Nesta casa pude vivenciar na pele o sofrimento dos moradores de rua convivendo com eles dentro da realidade deles. Estava nessa missão quando completei 18 anos e ganhei de presente de aniversário a autorização para dormir na rua com os miseráveis. Tive uma festa surpresa com enfeites feitos de papel higiênico, bem simples como eu queria. Foi nesta missão que voltei a estudar. Estudei numa escola de freiras com bolsa, mas não me dei muito bem porque não conseguia associar a vida religiosa aos estudos, pois me faltava tempo para estudar. Ficava no dilema entre estudar e a necessidade íntima de viver a profundidade do carisma. Então parei quando completei 18 anos.Outra casa que marcou foi a casa de Vinhedo, pela realidade das moradoras. Eram mulheres que tinham na carne as marcas da vida, algumas que foram abandonadas e outras que nem sabiam seu próprio nome ou nem podiam falar. E por fim e com carinho, me lembro da casa de Santa Tereza (RJ) que me chamou a atenção pela alegria que sentia lá. Era estranho: eu me sentia muito feliz, nunca me senti mal lá.

Sai da Toca em novembro de 2006. Tinha seis meses de noviciado e 5 anos de Toca de Assis.
Como eu era noviça, a mestra me levou em casa e lá eu tirei o hábito e o véu. Foi quando minha mãe me viu de véu pela 1ª vez e se arrependeu por ter pedido tanto para eu voltar. Meu pai me acolheu bem e disse que desde que eu fosse feliz, me apoiaria em tudo o que eu fizesse. Foi ruim pra mim, pois fiquei muito tempo lá e as duas realidades são muito distintas. Foi difícil me acostumar com a realidade daqui de fora, quase entrei em depressão, chorava todos os dias, nada me satisfazia, mas com o tempo fui aceitando, pois fui percebendo que era da vontade de Deus.
Hoje moro sozinha em Campinas e faço faculdade de enfermagem na Unicamp, namoro e sou muito feliz. Nunca voltei na Toca, mas se surgir alguma oportunidade gostaria muito de fazer pastoral, mas ultimamente ando sem tempo.
Digo com toda a certeza que esta fase da minha vida me ensinou a viver e a enxergar a vida com outros olhos, vale a pena viver; esta historia nunca irei apagar da minha vida e se possível escreverei ela em um diário com letras de ouro. Fui muito feliz na Toca, e hoje sou ainda mais feliz graças as experiências vividas lá. Jesus Sacramentado nosso Deus amado!”

Uli ( foto arquivo pessoal)

Depoimento concedido a Ana Paula P. Sandim e editado por Débora Gomes

8 comentários

Filed under Depoimento, Diario de Bordo

Outras Questões

Bendito seja o Irmão que abandonou a Irmandade

Por Augusto Fortes

Ao longo desses meses em que trabalhamos a “causa” dos toqueiros, que chega a população quase que como um apelo – “Vejam como amamos os pobres!” – algumas perguntas não obtiveram respostas, ou se as obtiveram, foram simples preceitos quase sonoramente cantados pela perfeição da “decoreba” aplicada. Mas em uma das minhas voltas à minha realidade, que não é a dos toqueiros afinal sou gente comum, me lembrei de uma entrevista com um Irmão Consagrado da Toca que me alertou para um fato que, até então não tinha tomado ciência. É sobre a ordenação do primeiro toqueiro como padre.
São três votos que compõem a estrutura sacerdotal de um toqueiro: obediência, castidade e pobreza.

Concordo que um padre deve ser obediente, casto, mas também enxergo que passa longe dos ideais dos toqueiros, uma vez que o padre tem uma morada fixa, desfruta de luxos como boas refeições, transporte, empregados e dinheiro. O que o sacerdote quiser, ele pode ter contanto que não desrespeite os votos de obediência e castidade. Não há mal em viajar, aproveitar um período de férias, pregar em outras paróquias ou até mesmo se divertir em momentos de folga na casa dos amigos conquistados ao longo de sua trajetória sacerdotal. Sem esquecer dos padres prefeitos, deputados, partidários e afins.

O meu ponto de vista aqui só serve para lembrar que a vida de um toqueiro se difere, e muito, da vida de um padre. Então, será que a ordenação do homem comum Rogério, consagrado toqueiro como irmão Rafael, agora novamente Rogério, mas como padre – é que uma vez toqueiro ordenado Irmão Consagrado, abandona-se a verdadeira identidade para ganhar uma nova vida, no caso dele de Rogério para Rafael e agora novamente Rogério –, não é uma afronta ao sistema que o lançou à vida religiosa e pela qual seguiu seu chamado? E será que assim como um adolescente muda de opiniões pelo furor das oportunidades que o mundo lhe reserva, o mesmo Irmão Consagrado, certo de sua vida de toqueiro obediente, casto e pobre mudou de opinião com relação a sua vocação e preferiu os lençóis aconchegantes, a farta refeição, o calor da companhia dos amigos e a liberdade de poder descansar em férias e passeios quando assim seu corpo pedir? Ou ainda assim dormirá no meio dos menos favorecidos, se sentará à mesa com eles para se alimentar e pregará nas ruas, onde não há a pompa e os adornos áureos existentes em suas capelas?
E se outros toqueiros passarem a aderir à nova moda de se consagrar padre, como ficará a instituição? E as forças pregadas por eles? Para onde iria o voto de pobreza?
Com tantas perguntas, talvez esta não seja uma grande conquista da Toca de Assis e sim o começo da desestrutura de uma grande ordem.

2 comentários

Filed under Opinião

As Vestes

Conheça as diferentes etapas pelas quais os Toqueiros passam antes de se tornarem Irmãos Consagrados


Por Ana Paula P. Sandim e  Débora Gomes

Os Toqueiros são reconhecidos nos lugares em que passam devido a maneira peculiar e característica de se vestirem. A cor marrom de suas vestes, as sandálias de couro ou chinelo Havaiana (quando não estão descalços), o cordão amarrado na cintura, a cruz no peito, o véu na cabeça das Irmãs Consagradas e Noviças, o corte de cabelo marcante dos Irmãos Consagrados. Tudo isso lhes concede um destaque maior em meio a multidão.

Até se tornarem Imãos (ãs) Consagrados, os Toqueiros passam por fases de transição.

Em cada fase, mudam-se as roupas e o significado das mesmas.
A primeira etapa, conhecida como vocacionado, dura cerca de seis meses. Nela, o jovem é ‘avaliado’ pelos Irmãos Consagrados, afim de descobrir se há mesmo vocação para a vida religiosa. Nesta fase, conhecida também como a fase da experiência, tanto  os homens quanto as mulheres usam camisetas com o nome da Toca, diferenciando-se na saia para as vocacionadas e calça para os vocacionados, ambos na cor marrom.

Vocacionado

Na próxima etapa, o jovem permanece por cerca de um ano: a etapa de aspirante. Nela, as vestes se igualam para ambos: marrom, com uma cruz que simboliza o Instituto Filhos e Filhas da Pobreza do Santíssimo Sacramento e os três votos (castidade, obediência e pobreza). Nessa fase também, é conhecido o TAU, uma espécie de crucifixo no formato de letra “T” que significa escolhido de Deus.


2ª Etapa e TAU


A terceira etapa, postulante, é um tempo para o jovem refletir e amadurecer sua vocação. É dividida em dois anos, sendo que no primeiro, além da veste marrom, há também o manto dos pobres (ou Jingle). No segundo ano (quarta etapa) a veste ganha um capuz, que simboliza a mendicancia.


3ª Etapa

O noviciado é a próxima etapa. Nela, os jovens religiosos, sob os cuidados dos Mestres ou Mestras de Noviços (as), se preparam por um há dois anos, para receber a consagração, a afirmação de seus votos. Para as Noviças, véu branco e hábito todo marrom. Os Noviços, hábito também marrom, mas com capuz. Para ambos, cíngulo (cordão amarrado na cintura) sem nó e a cruz de Noviços.


4ª Etapa

Por último, a etapa de Consagração. Nela, os jovens afirmam seus votos, mudam seus nomes e passam a ser Irmãos: os Irmãos Consagrados. As vestes em dois tons de marrom, o cíngulo com os três nós representando os três votos (obediência, castidade e pobreza), o crucifixo dos Consagrados, o véu marrom para as Irmãs e a tonsura (corte de cabelo, que representa a coroa de Cristo) para os Irmãos.

Crucifixo dos Consagrados

Ilustrações feitas por Joana Féres Ferreira

1 Comentário

Filed under Matérias